ANA CRISTINA CESAR

poeta, tradutora e ensaísta
Nasceu: 02/06/1952
Rio de Janeiro - RJ
Suicidou-se no dia 29/10/1983

Ela era inquieta, lúcida, bonita. Sedutora e literária sempre, da fala ao gesto irreverente ou delicado.
Sua morte, prematura e voluntária, aos 31 anos, em 1983, legou aos contemporâneos uma perplexidade incômoda e uma obra dispersa que ainda assombra.
Dona de uma literatura de imagens e referências sofisticadas - tramada em sutilezas e armadilhas que por isso mesmo a diferenciam da chamada poesia marginal em que germinou - Ana não disse adeus ao mundo com Carta de despedida. Seu último texto, de fato, foi endereçado ao amigo e poeta Armando Freitas Filho. Carta de despedida não tem data - como o outro, sobre Ferlinghetti - e impressiona pela alusão seca, súbita e inequívoca que o encerra. ''É belíssimo'', afirma ao ouvi-lo Heloisa Buarque de Hollanda, sua amiga e profunda conhecedora de seus disfarces literários. ''Toda a obra de Ana anuncia uma angústia grande. Qualquer poema seu tem sempre uma despedida; está a perigo.''

Biografada em tom emocionado mas perspicaz pelo também amigo e poeta Italo Moriconi, em edição da coleção Perfis do Rio, Ana virou tema de tese de mestrado, defendida há dois anos na PUC, que aborda sua obra pelo aspecto simbólico e literário do suicídio. Em linguagem ''profunda e delicada'', nos dizeres de Waldo Cesar, a autora fluminense Carla Nascimento mostra que a intimidade com a morte é própria do poeta porque seu trabalho é encená-la permanentemente pela destruição do sentido convencional, social, da palavra. Mas, em 29 de outubro daquele ano, Ana descuidou-se de que a experiência era poética. Meia hora após conversar com Armando ao telefone, driblou a atenção da empregada e do psicólogo que a assistia, correu e se atirou do sétimo andar da casa de seus pais, em Copacabana. Com o gesto, nos deixou à mercê de significados urgentes mas indecifráveis. Polissemia pura, como ela sempre queria.

Fonte: Káthia Ferreira - Segredos de Ana C.