Antonio Gedeão (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho), filho de um funcionário dos correios e telégrafos e de uma dona de casa, nasceu a 24 de Novembro de 1906 na lisboeta freguesia da Sé. Aí cresceu, juntamente com as irmãs, numa casa modesta da rua do Arco do Limoeiro (hoje rua Augusto Rosa), no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida. Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim batizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa, é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contato com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias. Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contato com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu. Este fator será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, quando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. E assim, enquanto Rómulo de Carvalho estuda Ciências Fisico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, as palavras ficam guardadas para quando, mais tarde, surgir alguém que dará pelo nome de António Gedeão. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras da cidade invicta, prenunciando assim qual será a sua atividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir lecionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes. Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-diretor da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusive, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da coleção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um caráter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra. A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De fato, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica. Apesar da intensa atividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destruí-la. Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção. A obra de Gedeão é um enigma para os críticos, pois além de surgir, estranhamente, só quando o seu autor tem 50 anos de idade, não se enquadra claramente em qualquer movimento literário. Contudo o seu enquadramento geracional leva-o a preocupar-se com os problemas comuns da sociedade portuguesa, da época. Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente. A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade. É deste modo que "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho. E, mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido". O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino,em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite. Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos. Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias. Quando completa 90 anos de idade, a sua vida é alvo de uma homenagem a nível nacional. O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta, é reconhecido publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música. Infelizmente, a 19 de Fevereiro de 1997 a morte leva-nos Rómulo de Carvalho. Gedeão, esse já tinha morrido alguns anos antes, quando da publicação de Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos. Avesso a mostrar-se, recolhido, discreto, muito calmo, mas ao mesmo tempo algo distante, homem de saberes múltiplos e de humor sutil, Rómulo de Carvalho que nunca teve pressa, mas em vida tanto fez, deixa, em morte, uma saudade imensa da parte de todos quantos o conheceram e à sua obra. CRONOLOGIA 1906 - Rómulo de Carvalho nasce a 24 de Novembro, na Rua Arco do Limoeiro, em Lisboa. 1931 - Licencia-se em Ciências Físico- Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. 1932 - Conclui o curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras do Porto. 1934 - Faz o Exame de Estado para o Magistério Liceal; inicia a sua actividade como professor no Liceu Camões, em Lisboa, carreira que prossegue no Liceu D. João III, em Coimbra e, posteriormente, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde, a partir de 1958, foi professor metodólogo de Ciências Físico-Químicas. 1946- Co-director da "Gazeta de Física" da Faculdade de Ciências de Lisboa, cargo que exerceu até 1974. 1952 - Lançou a "História do Telefone", o primeiro de uma longa lista de livros didácticos, onde conta a história da fotografia, dos balões, da electricidade estática, do átomo, da radioactividade, dos isótopos e da energia nuclear, entre outras. No ano seguinte, sai o "Compêndio de Química para o 3º Ciclo". 1956 - Publicou o primeiro livro de poesia, "Movimento Perpétuo", sob o pseudónimo António Gedeão (A.G.), em Coimbra. 1958 - Novo livro de poesia, "Teatro do Mundo". 1959 - A.G. publica o poema "Declaração de Amor", na "Colóquio" de Novembro e Rómulo de Carvalho a "História da Fundação do Colégio Real dos Nobres em Lisboa 1765-1772". 1961 - Sai o terceiro livro de poemas de A.G., " Máquina de Fogo", em Coimbra. 1963 - A peça "RTX 78/24" é a primeira incursão de Gedeão no teatro. Mais tarde, escreveria "História Breve da Lua", para crianças. 1964 - A.G. publica "Poesias Completas", em Lisboa; assinalando o quarto centenário do nascimento de Galileu Galilei, escreve o "Poema para Galileu". 1965 - Co-director da revista pedagógica "Palestra", do Liceu Pedro Nunes, durante 8 anos; A.G. Assina o ensaio " O Sentimento Científico em Bocage". 1967 - A.G. lança "Linhas de Força", em Coimbra. 1968 - A.G. publica, em Lisboa, "Poesias Completas (1956-1967)", uma obra que chegou à 10ª edição. 1973 - Co-autor do "Boletim do Ensino Secundário", do Ministério da Educação, até 1975; A.G. aventura-se na ficção com "A Poltrona e outras Novelas". 1974 - Reforma-se ao completar quatro décadas de ensino. 1978 - É dado à estampa a "História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra". 1979 - Publica em Lisboa "Relações entre Portugal e Rússia no Século XVIII". 1980 - A.G. Publica "Soneto", na "Colóquio Letras" nº 55. 1981 - Às obras de carácter histórico, acrescenta "A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos séculos XVIII e XIX". 1982 - Conclui "A Física Experimental em Portugal no século XVIII". 1983 - Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. 1984 - A.G. Publica "Poemas Póstumos", em Lisboa. 1985 - Publica "Poemas dos Textos" (A.G.), na "Colóquio Letras" nº88 e "A Astronomia em Portugal no século XVIII". Um ano depois, surgiria a "História do Ensino em Portugal, desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do Regime de Salazar- Caetano". 1987 - É nomeado Grande Oficial da Ordem de Instrucção Pública. 1990 - A 11 de Maio assumiu a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências; Saem os "Novos Poemas Póstumos" (A:G.). 1992 - Sócio efectivo da Academia das Ciências; uma escola Secundária da Cova da Piedade é baptizada com o nome de António Gedeão. 1995 - É-lhe atribuído o doutoramento honoris causa pela Universidade de Évora e apresenta " O Texto Poético como Documento Social", numa edição da Fundação Calouste Gulbenkian. 1996 - Faz 90 anos no dia 24 de Novembro e é alvo de uma homenagem nacional promovida pelo Ministério das Ciências e Tecnologias. 1997 - A 19 de Fevereiro, na sequência de uma intervenção cirurgíca, morre na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de St. Maria. (Adaptado da cronologia editada in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, de 6 a 19 de Novembro de 1996) BIBLIOGRAFIA 1956 - Movimento Perpétuo Ficção 1942 - Bárbara Ruiva (1ª edição: Abril 2009) Teatro 1978 - RTX 78/24 Ensaio 1965 - O Sentimento Científico em Bocage
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