SOLANO TRINDADE
24/07/1908 ─ † 20/02/1974
RECIFE ─ PERNAMBUCO

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FRANCISCO SOLANO TRINDADE (Solano Trindade),  poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta. Foi também operário, comerciário e colaborou na imprensa.

Nasceu em Recife, Pernambuco em 24 de julho de 1908. Faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 19 de fevereiro de 1974.

Solano nasceu no bairro de Bom Jesus, em Recife, Pernambuco. Filho da quituteira Emerenciana e do sapateiro Manoel Abílio, viveu em um lar católico, apesar de seu pai incorporar entidades às escondidas. “Meu avô se fazia de católico na frente dos outros, mas eu o via dentro do quarto virar no santo e falar iorubá”, afirma a folclorista, artista plástica e escritora Raquel Trindade, filha de Solano.

No ano de 1934 idealizou o I Congresso Afro-Brasileiro no Recife, Pernambuco, e participou em 1936 do II Congresso Afro-Brasileiro em Salvador, Bahia.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, nos anos 40 e logo depois para São Paulo, onde passou a maior parte de sua vida no convívio de artistas e intelectuais. Participou de um grupo de artistas plásticos com Sakai de Embu onde integrou na produção artística a cultura negra e tradições afro-descendentes. O poeta foi homenageado com o nome em uma escola e uma rua na região central do município.

Homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo, Solano Trindade foi, para vários críticos, o criador da poesia "assumidamente negra" no Brasil.

Premiado no exterior, elogiado por celebridades como Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro, Sérgio Milliet e tantos outros, o negro (e pobre) escritor recifense está hoje completamente esquecido, apesar de tudo o que fez pela cultura e pelas artes do País.

Depois que deixou o Recife e fixou residência no Rio de Janeiro, Solano Trindade foi o idealizador do I Congresso Afro-Brasileiro e, anos mais tarde (1945), criou, com Abadias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro.

Depois (1950), concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior.

No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça "Orfeu", de Vinícius de Moraes, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus.

Em São Paulo, onde o TPB empolgou platéias no Teatro Municipal, foi ele quem transformou a cidade de Embu num centro cultural onde dezenas de artistas passaram a viver da arte.

No exterior (Praga), realizou o documentário "Brasil Dança". Como ator, trabalhou nos filmes "Agulha no Palheiro", "Mistérios da Ilha de Vênus" e "Santo Milagroso".

Foi co-produtor do filme "Magia Verde", premiado em Cannes. Na literatura, Solano estreou em 1944, com "Poemas de uma Vida Simples" e publicou ainda outros dois livros: "Seis Tempos de Poesia" (1958) e "Cantares ao Meu Povo" (1961).

Enquanto atuou na vida cultural brasileira, Solano Trindade ("esse genial poeta", na classificação de Carlos Drummond de Andrade) recebeu os maiores elogios da crítica.

O trabalho do Teatro Experimental do Negro (TEN) foi, segundo Darcy Ribeiro, "um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação".

Todo o trabalho de Solano Trindade (quer no teatro, dança, cinema ou literatura) tinha como características marcantes o resgate da arte popular e, sobretudo, a luta em prol da independência cultural do negro no Brasil.

A ponto de Sérgio Milliet chegar a escrever que "poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal de valorização do negro em nossa terra". Estaria aí uma razão para o seu esquecimento? Fica a pergunta.

O certo é que, durante a estréia no Rio, em maio de 1945, o TEN sofreu violentos ataques dos conservadores. Em editorial, o jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de "um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no País".

Em 1944, por conta do poema Tem Gente com Fome, foi preso e teve o livro "Poemas de uma Vida Simples" apreendido. Em 1964, um dos seus quatro filhos (Francisco) morreu numa prisão da ditadura militar.

Um das poucas tentativas de trazer de volta o nome de Solano Trindade para o grande público ocorreu entre 1975, quando o poema Tem Gente com Fome iria integrar o disco dos Secos & Molhados.

Mas, como explicou João Ricardo (que musicou o poema), problemas com a censura impediram a gravação. Só em 1979, Ney Matogrosso gravaria a canção Tem Gente com Fome, no seu LP "Seu Tipo".

Em 1976 a escola-de-samba Vai-Vai, do Bexiga, São Paulo, desfilou no carnaval com o enredo em homenagem ao poeta. E em 2001 uma pequena editora (a Cantos e Prantos, SP), reuniu a obra do poeta no volume "Solano Trindade - O Poeta do Povo".


BIBLIOGRAFIA

Poemas de uma Vida Simples, 1944
Seis Tempos de Poesia, 1958
Cantares ao Meu Povo, 1961
Tem gente com fome e outros poemas, 1988
O poeta do povo, 1999


CRONOLOGIA

1908 - A 24 de julho, nasce Francisco Solano Trindade, numa casa da Rua Nogueira, bairro de São José, Recife. Filho do sapateiro e véio de pastoril Manoel Abílio (o "Menino de Ouro") e da doméstica Merenciana Quituteira, ambos pretos e pobres.

- Estuda até o equivalente ao Segundo Grau e freqüenta, durante um ano, o curso de desenho no Liceu de Artes e Ofícios.

1920 - No final da década, torna-se protestante, sendo diácono presbiteriano.

- Publica seus primeiros poemas na revista do Colégio XV de Novembro, de

Garanhuns, e em jornais do Recife. Só depois dessa fase começaria a nascer o poesia negra.

1934 - Organiza no Recife o I Congresso Afro-Brasileiro e o II em Salvador.

1936 - Funda no Recife, com o pintor primitivista Barros Mulato e o escritor Vicente Lima, a Frente Negra Pernambucana e o Centro Cultural Afro-Brasileiro.

- Publica o livro "Poemas Negros".

- Muda-se para Belo Horizonte, onde permanece pouco tempo, indo em seguida para o Rio Grande do Sul.

1940 - Em Pelotas, funda um Grupo de Arte Popular. Depois, retorna ao Recife.

1942 - Com um grupo de artistas, expõe sua pintura no Rio de Janeiro, onde fixou residência.

1944 - Publica o livro "Poemas de uma Vida Simples".

- Participa do II Congresso Brasileiro de Escritores.

- Funda o Comitê Democrático Afro-Brasileiro.

- Funda, com Haroldo Costa, o Teatro Folclórico Brasileiro.

- Lança, no auditório da UNE, com Paulo Ramalho, a Orquestra Afro-Brasileira, do maestro Abigail Moura

- Em dezembro, por conta do poema "Tem Gente com Fome", é preso e tem o seu livro apreendido.

1945 - Funda, no Rio de Janeiro, com Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro cuja estréia ocorreu em maio daquele ano, com a peça "O Imperador Jones".

1950 - Funda, com o sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro cujo elenco era formado por operários, domésticas, comerciários e estudantes e apresentava espetáculos de batuques, congadas, caboclinhos, capoeira, coco e outras manifestações populares. Com o grupo, viaja a vários países da Europa.

1955 - É responsável pela primeira montagem da peça "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Moraes, que em 1956 também seria dirigida por Léo Jusi e em 1959 seria adaptada para o cinema, sob o título "Orfeu Negro", pelo cineasta francês Marcel Camus.

- Cria o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior.

1958 - Lança o livro "Seis Tempos de Poesia".

1961 - Lança o livro "Cantares ao Meu Povo" que teria uma segunda edição em 1981, pela Editora Brasiliense.

- Transforma a cidade de Embu, São Paulo, num grande centro cultural onde o Teatro Popular Brasileiro viveu a sua melhor fase, com suas apresentações atraindo multidões. Depois que Embu passou a ser atração mais turístico-comercial que artística, deixa a cidade e vai viver na capital paulista.

1969 - Adoece e passa por vários hospitais e um asilo, até morrer, numa clínica em Santa Tereza, Rio de Janeiro, a 20 de fevereiro de 1974.

Solano Trindade deixou uma peça teatral não publicada, "Malungo", em co-autoria com Miécio Tati, sobre os Quilombos. Teve quatro filhos: Raquel, Godiva, Liberto e Francisco Solano, este assassinado em 1964, num presídio carioca da ditadura militar.

1976 - A Escola-de-samba Vai-Vai, do Bexiga, São Paulo, desfila no carnaval com o enredo em homenagem a Solano Trindade.

1988 - O Centro Cultural Solano Trindade, fundado em 1975, no bairro de Realengo, Rio de Janeiro, publica o livro "Tem Gente com Fome e Outros Poemas"


SOBRE O AUTOR

"A minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor. Deixem-me amar a tudo e a todos".

Solano Trindade percorreu uma trajetória singular no meio cultural brasileiro como o modo reflexivo de suas abordagens. Sua poesia enreda-se, quase sempre de maneira tácita, a um liame essencial: o anseio de liberdade tão próprio de sua etnia e tão latente em sua ancestralidade nesse universo de conformismo do nosso panorama social onde o poeta assume sem indiferença a sua circunstância em relação ao mundo.  A escolha temática e os signos simbólicos na raiz de sua poesia estão voltados para a dura vida das minorias negras marginalizadas e para a evocação das tradições populares dos negros do Brasil.

"Solano Trindade, o poeta e o homem, incorporam a espontaneidade criadora da poesia e a dignidade do indivíduo humano." (Wilson Rocha)

Sua poesia, carregada de sentimento, expressa inconformismo, com simplicidade e beleza. Carlos Drumond de Andrade disse o seguinte sobre alguns de seus poemas: "Há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva". Um de seus trabalhos mais famosos, intitulado "Tem gente com fome", foi musicado e gravado por Nei Matogrosso.

Morreu no Rio, em 1974. Mas em 1976, voltou aos braços do povo, na avenida. Foi tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. (Márcio Barbosa)

"De todos os escritores negros, ligados à coletividade negra brasileira, o que deixou presença mais forte foi Solano Trindade. Foi o primeiro a escrever, com especificidade, para negros, naquele tempo. Pagou o preço disso, e como!" (Oswaldo de Camargo)

 
     
   
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