MURILO MENDES 

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SOBRE O AUTOR

CRONOLOGIA

PRÊMIOS

NOTAS E LINKS

Nasceu: 13/05/1901
Juiz de Fora - MG
Faleceu: 13/08/1975
Lisboa - Portugal

 

 

 


MURILO MONTEIRO MENDES (Murilo Mendes), poeta, prosador e crítico de artes plásticas.

Nasceu en 13  de  maio  de  1901,  em  Juiz  de  Fora,  Minas  Gerais, terceiro filho de Onofre Mendes, funcionário público, e de Elisa Valentim Monteiro Mendes. Faleceu em 13 de Agosto de 1975, na cidade de Lisboa, Portugal, aos 74 anos.

Em 20 de  outubro  de  1902,  sua  mãe  morre  de  parto  e  daí  a  pouco  seu  pai  casa-se  em segundas núpcias com Maria José Monteiro. Deste segundo casamento nascem cinco filhos. A meninice decorrida serenamente em Juiz de Fora, que o poeta  maduro  irá  reviver  nas páginas autobiográficas de A idade do serrote (1968), é marcada, em 1910, pela passagem nos céus do Brasil do cometa de Halley, que o  “desperta para a poesia”. Em 1910, depois de ter concluído os cursos primário e ginasial em Juiz de Fora, entra na local Escola de Farmácia, que  abandona  pouco  tempo  depois. 

Em 1917, aluno interno do colégio Santa Rosa em Niterói, foge  à  noite  para  assistir,  no  Teatro  Municipal  do  Rio  de  Janeiro,  aos  balés  de Diaghilev  e  ver  Nijinsky  “dançar  no  Arco-Íris”.  Entre 1917 e 1921, exerce várias atividades, desde telegrafista e prático de farmácia, funcionário de cartório e professor de francês num colégio de Palmira, até ser assumido como arquivista do Ministério da Fazenda.

O encontro aos vinte anos com o pintor Ismael Nery constitui um momento fundamental para a sua vida espiritual e a sua atividade poética.  Os anos 1924-1929,  período  de  formação  e  de instabilidade  social  (é  escriturário  do  Banco  do  Brasil),  sancionam,  porém,  sua  vocação literária revelada com a colaboração em algumas revistas do primeiro modernismo (Revista de Antropofagia, de São Paulo, e a Verde, de Cataguases, Minas Gerais),  até  a  publicação,  na  Editorial  Dias  Cardoso  de  Juiz  de  Fora,  em 1930, do primeiro livro, Poemas 1925-1929, que será galardoado com o prêmio de poesia Graça Aranha. Em 1932, publica na Revista Nova de Paulo Prado, com data de 1931, o auto  Bumba-meu-poeta e, em Edição de Ariel, no Rio de Janeiro, o conjunto de poemas-piada da  História do Brasil.

Em 1934, a morte de Ismael Nery desencadeia em Murilo uma crise existencial e religiosa que o devolve a um cristianismo das origens, de raiz evangélica. Testemunho da crise será o livro  de  poemas  Tempo  e  eternidade,  publicado  naquele  mesmo  ano  (Porto  Alegre,  Globo), juntamente com o amigo poeta, médico e pintor Jorge de Lima, a quem ficará sempre ligado nos  anos  que  virão,  oferecendo-lhe,  em  1951,  o  título  para  a  suma  poética  do  fim  da  vida: Invenção  de  Orfeu. 

Em 1938, publica no Rio (Coop. Cultural  Guanabara)  a  Poesia  em  pânico, interessante  exemplo  de  “surrealismo  lúcido”,  em  que  seu  antigo  desejo  existencial  de “aliança dos extremos” encontra uma atuação original no plano da poesia, que se distancia, com seu visionarismo diurno e apocalíptico, do onirismo bretoniano. Com o alastramento do segundo conflito mundial, o grande historiador e poeta português Jaime Cortesão, opositor do ditador Salazar, fixa-se, em 1940, com a família no Rio, e Murilo Mendes conhece Maria da Saudade  Cortesão,  filha  do  historiador,  com  a  qual  virá  a  casar-se  em  1947.  Em  1941  sai  O visionário  (Rio  de  Janeiro,  José  Olympio).  Em 1943, Murilo  Mendes  é  internado  com tuberculose pulmonar num sanatório de Correia.

Sai, em 1944, numa bela edição com capa de Santa Rosa e ilustrações de Portinari, o livro  As  metamorfoses  (Rio  de  Janeiro,  Ocidente), entre  os  mais  significativos  do  poeta,  que  vai  alcançar  grande  fortuna  nacional  e internacional  entrando,  com  seus  poemas  mais  famosos,  em  várias  antologias.  No entanto, em 1945, aparecem, numa edição conjunta, os poemas do Mundo enigma, compostos em 1942 e  dedicados  a  Maria  da  Saudade  Cortesão,  e  Os  quatro  elementos,  inéditos  desde  1935.  E, afinal,  em  1947,  é  publicada,  pela  Agir  do  Rio  de  Janeiro,  Poesia  liberdade,  obra  central,  por compromisso  civil  e  qualidade  poética,  na  produção  do  escritor.  O  remate  do  volume,  o poema  “Janela do caos”, que será depois traduzido para italiano por Giuseppe Ungaretti, é publicado em Paris, em 1949, numa edição de luxo ilustrada com seis litografias de Francis Picabia. 

Nesta  altura,  Murilo  Mendes  já  tem  no  Brasil  uma  sua  imagem  fixada  numa mitografia pessoal composta de anedotas que falam do poeta, surrealista na vida ainda mais do  que  na  obra,  o  qual  abre  o  guarda-chuva  durante  os  concertos  para  protestar  contra  as más execuções, ou que, durante a guerra, envia telegramas a Hitler protestando em nome de Mozart contra a invasão de Salzburg por parte das tropas alemãs. Cada um tem sua anedota sobre o poeta. E é nesta altura que Murilo Mendes, depois de ter preparado para a publicação no  Rio  o  que  ele  julga  constituir  a  sua  suma  poética  até  então  (Poesias  1925-1955,  José Olympio,  1959),  deixa  o  Brasil,  passando  a  viver  na  Europa,  onde  vai  construir  nova  vida  e nova imagem de si dentro de um contexto internacional.

Entre 1952 e 1956, Murilo Mendes e Maria da Saudade realizam a sua primeira estadia na Europa  com  uma  missão  cultural  em  Paris,  na  Bélgica  e  na  Holanda.  Até  que,  em  1957,  o poeta e sua esposa mudam-se definitivamente para Roma, onde Murilo vai ocupar o lugar de
professor de cultura brasileira na Universidade. A sua casa na via del Consolato 6, onde se reúnem escritores e artistas plásticos, transforma-se num ponto de encontro e de referência para intelectuais de todos os países. A partir deste momento, a própria produção poética de Murilo muda de rumo.  O convívio em Roma com poetas como Ungaretti, Palazzeschi  ou Ruggero Jacobbi, que se tornam seus amigos e tradutores, na Espanha com Dámaso Alonso ou  Ángel  Crespo,  eles  também  seus  tradutores,  a  correspondência  diária  com  poetas  e escritores franceses ou de língua francesa, mas sobretudo a amizade com os artistas plásticos que frequentam a sua casa e de que ele se faz  “apresentador” em poemas em verso ou em prosa publicados em catálogos de exposição, alargam o seu horizonte de interesses. Como a pintura  contemporânea,  a  sua  poesia  torna-se  mais  abstrata,  seca,  intelectualizada: acompanha  ou  às  vezes  precede  os  movimentos  brasileiros  dos  poetas  inventores  da  sua própria  forma  poética,  como  João  Cabral,  o  grande  amigo  de  sempre,  mas  também  os concretistas  de  São  Paulo,  Haroldo  de  Campos  em  especial. 

Começam  a  sair  na  Itália,  na França e na Espanha traduções e antologias das suas obras. A primeira é a Siciliana, em 1959, com  prefácio  de  Ungaretti,  seguida  pela  antologia  da  Poesia,  traduzida  também  com colaboração de Ungaretti. O nome do poeta torna-se conhecido na Europa. Ele apresenta em Florença a grande exposição de Alberto Magnelli, enquanto em Lisboa é publicada, em 1964, pela  Livraria  Morais,  a  sua  Antologia  poética. 

No entanto, o poeta, que desde a aparição no Rio, em 1945, de um volume de aforismas, O discípulo de Emaús, só tinha publicado livros de poesia,  volta  à  prosa  com  um  livro  de  memórias  infantis,  A  idade  do  serrote  (Rio  de  Janeiro, Sabiá) a que, dois anos depois, em 1970, segue a publicação, em São Paulo, da  Convergência, em  que  aparece  recolhida  a  poesia  composta  entre  1963  e  1966.  A  parábola  europeia  e italiana continua a ascender até atribuição a Murilo Mendes, em 1972, pelo livro antológico Poesia  Libertà,  traduzido  e  organizado  por  Ruggero  Jacobbi,  do  prestigioso  Prêmio Internacional  Etna-Taormina. 

No Brasil, porém, Murilo Mendes parece ter sido esquecido.  Há poucas exceções: Laís Correia de Araújo publica em 1972 sua monografia sobre o poeta, e a José Olympio lança no Rio o  Poliedro, em prosa. Mas os inéditos, de prosa especialmente, encontram cada vez mais difícil colocação. E à morte do poeta, acontecida em Lisboa, em 13 de  agosto  de  1975,  durante  as  férias  de  verão  que  ele  costumava  passar  com  Maria  da Saudade na casa que tinha sido do sogro, Jaime Cortesão, os volumes ainda não publicados e os  papéis  destinados  a  integrar  novos  volumes  amontoam-se  na  casa  de  Roma. 

Murilo  é sepultado  no  Cemitério  dos  Prazeres  de  Lisboa,  cidade  em  que  passa  a  residir  sua  viúva Maria da Saudade. Desde então, durante 19 anos, Luciana Stegagno Picchio, que tinha sido colega  de  Murilo  nas  Universidades  de  Roma  e  de  Pisa  e  amiga  de  convívio  diário  com Murilo e Maria da Saudade durante a sua permanência em Roma, vai editando os inéditos: antes o volume dos poemas italianos  Ipotesi  (Milão,  1978),  em  seguida  a  antologia  de  prosa Transistor  (Rio  de  Janeiro,  1980),  e  as  duas  edições  críticas  dos  Poemas  1925-1957,  (Rio  de Janeiro, 1988) e da  História  do  Brasil   (Rio  de  Janeiro,  1991). 

Pouco  a  pouco,  o  interesse  pela obra  do  poeta  mineiro  vai  ressurgindo,  especialmente  entre  os  jovens  que  apreciam  a  sua absoluta  liberdade  de  pensamento  e  de  expressão,  o  seu  humour  às  vezes  tocado  pelo desespero, a sua contínua capacidade de invenção e renovação.

NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA: Murilo Mendes: melhores poemas. Seleção Luciana Stegagno Picchio. - São Paulo: Global, 2012.

BIBLIOGRAFIA:

POESIA
Poemas - (1925-1929), 1930
Bumba-meu-poeta, 1930
História do Brasil, 1932
Tempo e eternidade, 1935 – com colaboração de Jorge de Lima
O sinal de Deus, 1936
A poesia em pânico, 1937
As metamorfoses (1938-1941), 1944
O visionário, 1941
Mundo enigma, 1945
Poesia liberdade, 1947
Janela do Caos, 1949
Contemplação de Ouro Preto, 1954
Poesias 1925-1955 (inclusão de poemas inéditos), 1959
Antologia Poética - Murilo Mendes, 1964.
Convergência, 1970
Antologia Poética, 1976 - Sel. João Cabral de Melo Neto
Transistor. (Seleção do autor e de sua esposa, Maria da Saudade Cortesão Mendes), 1980
Poemas e Bumba-Meu-Poeta, 1989
Poesia Completa e Prosa (inclusão de inéditos), 1994
Melhores Poemas, 2012 Sel. Luciana Stegagno Picchio

CRÔNICA
O Discípulo de Emaús, 1946
Poliedro, 1972

MEMÓRIA
A Idade do Serrote, 1968

ENSAIO
Retratos - relâmpago: 1ª série, 1973
Retratos - relâmpago: 2ª série, 1973-1974

ARTIGOS E ENTREVISTA
MENDES, Murilo. O eterno nas letras brasileiras modernas. Lanterna Verde, Rio de Janeiro, n. 4, nov. 1936, p. 43-48.
______ . Entrevista. [concedida a Homero Senna]. revista O Jornal, 9.12.1945 e  do "Globo", de 01/04/1950, e republicada no livro SENNA, Homero. Republica das letras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 3ª ed. 1996. Disponível no link. (acessado 13.8.2013).
______ . Depoimento. Suplemento Dominical do Jornal do Brasil de 25/07/1959.
______ . Não quero ser popular. Revista Veja, São Paulo, p. 3-5, 6 jul. 1972.

TRADUÇÕES E EDIÇÕES ESTRANGEIRAS
Espanhol
Poemas, (Tradução Dámaso Alonso). Madrid, 1962.

Francês
Office humain - Autour du Monde n°39. (tradução Dominique Braga e Saudade Cortesão). Paris: Éditions Seghers, 1956.
Janela do Caos. [Com litografias de Francis Picabia]. Paris: Imprimerie Union, 1949.

Italiano
Siciliana, [Poesia] (tradução A. A. Chiocchio; prefácio Giuseppe Ungaretti). {texto bilíngue}. Caltanissetta-Roma: Sciascia, 1959
Finestra del Caos [Janela do Caos]. (tradução Giuseppe Ungaretti). Milano: All'Insegna del Pesce d'Oro, 1961.
Poesie, (tradução Giuseppe Ungaretti, Luciana Stegagno Picchio e Ruggero Jacobbi). 1961.
Alberto Magnelli (Catálogos de exposição - em parceria com Giulio Carlo Argan, Eugenio Battisti, Palma Bucarelli, Maurizio Calvesi, Giuseppe Gatt, Nello Ponente e Italo Tomassoni. (tradução do texto de Murilo Mendes e Giuliano Macchi e tradução francesa e inglesa N). Gagliardi. Roma: Edizione dell'Ateneo, 1964.
Le Metamorfosi [As Metamorfoses], (tradução Ruggero Jacobbi). Milano: Lerici Editori, 1964.
Italianíssima (7 Murilogrammi) [7 Murilogramas]. Milano: Vanni Scheiwiller, 1965.
Calderara: Pitture dal 1925 al 1965 [Retratos-Relâmpago]. Milano: All'Insegna del Pesce d'Oro, 1965.
Poesia Libertá. (tradução Ruggero Jacobbi). Milano: Accademia; Firenze: Sansoni, 1971.
Marrakech [Retratos-Relâmpago]. Com litografias de G.I. Giovannola. Milão: All'Insegna del Pesce d'Oro, 1974.
Ipotesi. [Poesia] (Organização Luciana Stegagno Picchio). Milano: Guanda, 1977.

Português (Portugal)
Tempo Espanhol. [Poesia]. Lisboa: Morais Editora, 1959.
Janelas Verdes: Primeira Parte. [Crônica]. Desenhos Vieira da Silva; prefácio Luciana Stegagno Picchio. Edição de luxo, 250 exemplares. Lisboa: Galeria III, 1989.
Janelas Verdes. (Prefácio Luciana Stegagno Picchio; posfácio Eucanaã Ferraz). Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003.

Romeno
Metamorfozele, [Antologia]. (tradução e prefácio de Marian Papahagi). Bucareste: Editura Univers, 1982.


O AUTOR E A OBRA:

A primeira poesia de Murilo Mendes revela sua dívida com os principais temas e procedimentos típicos do modernismo brasileiro dos anos 1920: o nacionalismo, o folclore, o coloquialismo, o humor, o poema-piada e a paródia. Fica, assim, evidente o diálogo com a poesia de Mário de Andrade (1893-1945) e a de Oswald de Andrade (1890-1954) nos três primeiros livros: Poemas, Bumba-Meu-Poeta e História do Brasil, este renegado e não incluído pelo poeta mineiro na edição de 1959, que reúne toda sua poesia publicada até então.

Nesse sentido, Mendes, que fora criado lendo Alphonsus de Guimaraens, Baudelaire e Victor Hugo, tenta colocar na mesma tela estas influências e as que recebeu de Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Logo, sua poesia torna-se uma poesia dialética, no sentido de unir opostos fazendo ascender suas comunhões e perder força suas incongruências. Por isso, Marcondes de Moura (em seu ensaio "As passagens do poeta") escreve que:
"A obra de Murilo Mendes se impõe muito mais pelas diferenças do que pelas semelhanças; seu lugar na história da lírica brasileira do século XX é antes deslocado e dissonante, como se as aproximações anteriormente sublinhadas fossem apenas de contorno ou de caráter muito geral. A tarefa maior, então, é tentar surpreender aquilo que a singulariza."

Assim, nessa persecução da comunhão de opostos, surge sua poesia católica surrealista, com temas incomuns e igualmente clássicos. A família parece ser um tema rotineiro na obra do autor mineiro

A partir de O Visionário, evidencia-se outra influência ainda mais decisiva para a poesia de Murilo Mendes: a do surrealismo. Desse movimento de vanguarda, o poeta incorpora sobretudo a técnica da montagem ou, como ele mesmo diz, da "acoplagem de elementos díspares". A liberdade com que ele funde, por meio dessa técnica, o imaginário e o cotidiano, o onírico e o intramundano, assim como o eterno e o contingente, leva Manuel Bandeira (1886 - 1968) a saudá-lo como o grande conciliador de contrários. O mesmo Bandeira, aliás, que ressalta a originalidade ingênita de Murilo Mendes, comparando-o a um bicho-da-seda, que tira tudo de si. O choque resultante da livre aproximação de elementos tão díspares da realidade e da imaginação responde pela impressão de fragmentação e estilhaçamento do verso, deliberadamente desarmônico e não-melódico. O anarcoerotismo dessa poesia pode também ser tomado como herança surrealista, como se vê na cosmologia representada pela figura hiperbólica de sua musa sensual: o mundo começava nos seios de Jandira.

A plasticidade e o predomínio da imagem sobre a mensagem são traços marcantes da poesia de Murilo Mendes, como nota João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) que atesta, assim, a influência exercida pelo primeiro sobre sua própria obra: "a poesia de Murilo me foi sempre mestra, pela plasticidade e a novidade da imagem. Sobretudo foi ela que me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo".

A influência das ideias do pintor e poeta Ismael Nery (1900 - 1934) responde por outra faceta da poesia de Murilo Mendes, a essencialista, relacionada à busca de verdades transcendentes, metafísicas, que definem a natureza dos seres e das coisas independente do tempo e do lugar. Além da influência intelectual, a morte prematura de Nery leva Murilo a uma grave crise, responsável por sua conversão ao catolicismo. Publica, assim, Tempo e Eternidade, livro escrito em parceria com Jorge de Lima (1895 - 1953) sob o lema: Restauremos a poesia em Cristo. A poesia católica de Murilo Mendes, intimamente ligada à essencialista, é o contraponto universalista à preocupação com as particularidades nacionais de sua primeira poesia, modernista.

A conversão católica do poeta mineiro é característica dos anos 1930, que assiste, no Brasil, a uma renovação da literatura cristã, como se pode verificar nas obras de Vinicius de Moraes (1913 - 1980), Augusto Frederico Schmidt (1906 - 1965), Otávio de Faria (1908 - 1980), Lucio Cardoso (1913 - 1968) e Cornélio Pena (1896 - 1958). Para essa renovação, seguem de perto o exemplo de pensadores, poetas e escritores católicos franceses, que aliam a ortodoxia católica a formas modernas de pensamento e militância, levando, em alguns casos, à adoção de uma postura católica de esquerda. É nessa linha que se pode entender a adesão de Murilo Mendes à religião, não como forma de alheamento, mas de resposta à realidade de seu tempo.

Em livros como As Metamorfoses e Poesia Liberdade, são vários os poemas de franca vocação crítico-social, incluindo-se aí sua lírica de guerra. Como nota José Guilherme Merquior (1941 - 1991), sua poesia católica é uma poesia da esperança, mais do que da crença. O poeta extrai do cristianismo uma dupla concepção de poesia: a poesia como martírio, que busca dar testemunho do sofrimento do eu irmanado ao do mundo: "Mundo público / Eu te conservo pela poesia pessoal", diz num dos poemas do período. A segunda concepção é a de poesia como salvação, como agente messiânico e noiva da revolução: "Todos ajuntando-se formarão um dia uma coluna / altíssima tocante as nuvens / e decifrarão o enigma", afirma em outro poema. O poeta assume aí o papel do visionário que antevê o apocalipse e anuncia a redenção. O catolicismo, entretanto, não amaina o sensualismo e o ímpeto transfigurador do real, que se mantêm como traços distintivos da poesia muriliana. Exemplo disso é o conhecido poema de A Poesia em Pânico, em que ele personifica a Igreja como uma mulher, toda em curvas. Essa atitude desenvolta para com a religião chega mesmo a assumir uma dimensão irreverente, quando não francamente sacrílega, como nos seguintes versos de O Poeta Nocaute: "Intimaremos Deus / a não repetir a piada da Criação..."

Na lírica muriliana do pós-guerra até fins dos anos 1950, percebe-se a mesma tendência neoclássica que marca a poesia de outros grandes líricos modernos, como Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) e Jorge de Lima. É o caso de Sonetos Brancos, em que retoma a forma fixa, clássica por excelência, mas com a liberdade métrica e rítmica e a ousadia de imagens tipicamente modernas. Dentro do mesmo espírito do período, inscreve-se a austeridade da poesia meditativa, resultante da contemplação da arquitetura e da paisagem tanto mineira, em Contemplação de Ouro Preto, quanto europeia, em Siciliana e Tempo Espanhol. Não se pode esquecer que esses livros, assim como as obras seguintes, são produzidos pelo poeta já vivendo na Europa, sob impacto dos países que visita e em que vive.

Foi um dos mais importantes poetas da Segunda fase do Modernismo. Fez sua obra em diversos períodos com diversas características, chegando até mesmo a produzir poesias alinhadas aos processos de vanguarda dos anos 70. Enquanto funcionário público. Suas primeiras obras são tipicamente modernistas no começo, mas quando converteu-se ao catolicismo sua obra mudou. Nessa fase já tinha influências cubistas. Por toda a vida seu estilo mudou muito, passando da irreverência inicial ao rigor e a suas características vanguardistas.

Na produção literária de Murilo Mendes dos anos 1960 e 1970, é possível reconhecer outras facetas de sua extensa obra. O traço mais significativo da produção desse período é o abandono da poesia em favor da prosa, que mescla formas literárias distintas, como o diário, o retrato, o livro de viagens e as memórias. A face experimental desse período leva também à heterogeneidade de registros, que funde recordações pessoais, citações de obras, perfis de artistas, flagrantes de países e cidades, visível em Poliedro, Carta Geográfica, Espaço Espanhol e Retratos-Relâmpago, entre outros livros. Em termos estilísticos, destacam-se a obsessão pelo concreto, o rigor e o léxico reduzido, evidenciados por Haroldo de Campos (1929 - 2003). Como nota Augusto Massi, o poeta consegue, a essa altura de sua produção, atingir uma forma literária tão particular, que parte dos títulos dos poemas de Convergência, aparece plasmada a seu nome: Murilogramas. Por último, vale mencionar a tendência memorialística da obra de Murilo Mendes, representada por A Idade do Serrote. Trata-se de uma: autobiografia insólita, em que, segundo Antonio Candido (1918), o dado comum é visto como extraordinário; o extraordinário é visto como se fosse comum. A Idade do Serrote ocupa um lugar de destaque na literatura memorialística e autobiográfica brasileira, ao lado das obras no gênero, em prosa e verso, de outros de seus contemporâneos mineiros: Drummond e Pedro Nava (1903 - 1984).

Poeta “diferente” nos dias da sua estreia, católico, surrealista, barroco, metafísico, visionário, insubmisso, Murilo Mendes é recuperado hoje pela crítica brasileira como um dos seus autores mais significativos, uma das vozes mais inovadoras e, por isso mesmo, mais essenciais da lírica modernista.


PRÊMIOS:

1930 - Prêmio Graça Aranha, pelo livro "Poemas".
1968 - Prêmio Nacional pela obra “Solidariedade”.
1972 - Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina.


CRONOLOGIA

1901 - Nasce em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 13 de maio. Filho de Onofre Mendes, funcionário público, e de Elisa Valentina Monteiro de Barros Mendes, dona-de-casa;

1902 - Sua mãe morre de parto aos 28 anos de idade. Seu pai casa-se com Maria José Monteiro, considerada a segunda mãe do poeta;

1912/1915 - Tem aulas de poesia e literatura com o poeta Belmiro Braga (1872 - 1937);

1916 - Ingressa na Escola de Farmácia após concluir o curso primário e frequentar o ginasial nos colégios Moraes e Castro, Malta e Academia de Comércio de Juiz de Fora. Abandona o curso depois de um ano;

1917 - Reside em Niterói, Rio de Janeiro, e estuda no colégio interno Santa Rosa, do qual foge para assistir à apresentação do bailarino e coreógrafo russo Vaslav Nijinski (1890 - 1950), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Recusa-se a continuar os estudos;

1917/1921 - Vai para o Rio de Janeiro com seu irmão mais velho, José Joaquim, engenheiro, que o coloca como arquivista na Diretoria do Patrimônio Nacional, após várias tentativas da família de empregá-lo como telegrafista, prático de farmácia, guarda-livros, funcionário de cartório e professor de francês. Torna-se amigo do pintor e poeta Ismael Nery (1900 - 1934), que contribui com sua formação, mostrando aspectos das novidades estéticas européias e aproximando-o do catolicismo;

1920 - Colabora no jornal A Tarde, de Juiz de Fora, produzindo artigos e com a coluna Chronica Mundana, assinada, inicialmente, com a sigla MMM (Murilo Monteiro Mendes) e depois com o pseudônimo De Medinacelli;
Murilo Mendes em Manchester

1921 - Ainda com o pseudônimo De Medinacelli,  publica Bilhetes do Rio no jornal A Tarde, de Juiz de Fora;

1924/1929 - Aproxima-se do surrealismo e escreve poemas modernistas, grande parte dos quais destrói. Escreve para as primeiras revistas modernistas: a Revista de Antropofagia, de São Paulo, e a revista Verde, de Cataguases, Minas Gerais;

1930 - Com apoio financeiro do pai, publica seu primeiro livro Poemas, que recebe o Prêmio Graça Aranha;

1932 - Publica o livro de poemas-piadas História do Brasil, posteriormente renegado e que volta a circular apenas em 1991. É colaborador, desde o primeiro número, do Boletim de Ariel, revista literária do Rio de Janeiro fundada pelo poeta, crítico e ensaísta Agripino Grieco (1888 - 1973);

1934 - Morre Ismael Nery, que lhe provoca uma crise religiosa. Volta-se com fervor para o catolicismo;

1940 - Conhece Maria da Saudade Cortesão, poeta e filha de Jaime Cortesão (1884 - 1960), historiador e poeta português exilado no Brasil durante o regime ditatorial instalado por Salazar (1889 - 1970) em Portugal, entre 1933 e 1974;

1943 - É internado num sanatório, para tratamento de tuberculose;

1947 - Casa-se com Maria da Saudade Cortesão;

1949 - Sob o título Janela do Caos, em Paris, em edição de 250 exemplares, sai uma coletânea de onze poemas, ilustrada com seis litografias do artista plástico Francis Picabia (1879 - 1953);

1952/1956 - Primeira estada na Europa: missão cultural na Bélgica e Holanda. Faz conferência na Sorbonne a respeito de Jorge de Lima (1895 -1953), morto recentemente;

1956 - Volta ao Brasil e faz conferências no Rio e em São Paulo. Tem visto negado para entrar na Espanha franquista, como professor de literatura;

1957 - Vai para a Itália, como professor de cultura brasileira na Universidade de Roma;

1959 - No Brasil, é publicado sob o título de Poesias, sua obra completa até o momento, com exceção de O Sinal de Deus e História do Brasil;

1964 - Vem ao Brasil selecionar obras para a 32ª Bienal de Veneza;

1972 - Recebe o Prêmio Internacional da Poesia Etna-Taormina e é publicado o livro de Laís Corrêa de Araújo dedicado à sua obra. Murilo Mendes vem ao Brasil pela última vez;

1975 - Murilo Mendes morre em Lisboa, em 13 de agosto.


NOTAS E LINKS:

• Murilo Mendes utiliza a linguagem coloquial e os neologismos para compor seus textos. Escreveu poemas, antologias e algumas obras em prosa, das quais se destacam as frases:

“Sou um espírito dialético, eu busco a lógica oculta entre a sensualidade e cristianismo, racionalismo e irracionalismo.”
“Ainda não estamos habituados com o mundo. Nascer é muito comprido.”
“É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece.”
“Só não existe o que não pode ser imaginado.”

• Com a morte da mãe em 1902, o pai casa-se novamente com Maria José Monteiro, considerada pelo poeta sua segunda mãe. Aos 16 anos foge do colégio para assistir, no Rio de Janeiro, à apresentação do bailarino e coreógrafo russo Vaslav Nijinski (1890 - 1950). Nessa mesma época, recusa-se a continuar os estudos. Após várias tentativas da família de fixá-lo num emprego, vai, com o irmão mais velho, para o Rio de Janeiro, em 1920.

• Após a morte do amigo pintor, filósofo e poeta Ismael converte-se ao catolicismo.

LINKS:

MUSEU DE ARTE MURILO MENDES
http://www.museudeartemurilomendes.com.br/



FONTES:
WIKIPÉDIA
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ITAÚ CULTURAL
MUSEU DE ARTE MURILO MENDES
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TOPO

NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA

Murilo  Monteiro  Mendes  nasceu  em  13  de  maio  de  1901,  em  Juiz  de  Fora,  Minas  Gerais, terceiro filho de Onofre Mendes, funcionário público, e de Elisa Valentim Monteiro Mendes.

Em 20 de  outubro  de  1902,  sua  mãe  morre  de  parto  e  daí  a  pouco  seu  pai  casa-se  em
segundas núpcias com Maria José Monteiro. Deste segundo casamento nascem cinco filhos.
A meninice decorrida serenamente em Juiz de Fora,  que  o  poeta  maduro  irá  reviver  nas
páginas autobiográficas de A idade do serrote (1968), é marcada, em 1910, pela passagem nos
céus do Brasil do cometa de Halley, que o  “desperta para a poesia”. Em 1910, depois de ter
concluído os cursos primário e ginasial em Juiz de Fora, entra na local Escola de Farmácia,
que  abandona  pouco  tempo  depois. 

Em 1917, aluno interno do colégio Santa Rosa em Niterói, foge  à  noite  para  assistir,  no  Teatro  Municipal  do  Rio  de  Janeiro,  aos  balés  de Diaghilev  e  ver  Nijinsky  “dançar  no  Arco-Íris”.  Entre 1917 e 1921, exerce várias atividades, desde telegrafista e prático de farmácia, funcionário de cartório e professor de francês num colégio de Palmira, até ser assumido como arquivista do Ministério da Fazenda.

O encontro aos vinte anos com o pintor Ismael Nery constitui um momento fundamental para a sua vida espiritual e a sua atividade poética.  Os anos 1924-1929,  período  de  formação  e  de instabilidade  social  (é  escriturário  do  Banco  do  Brasil),  sancionam,  porém,  sua  vocação literária revelada com a colaboração em algumas revistas do primeiro modernismo (Revista de Antropofagia, de São Paulo, e a Verde, de Cataguases, Minas Gerais),  até  a  publicação,  na  Editorial  Dias  Cardoso  de  Juiz  de  Fora,  em 1930, do primeiro livro, Poemas 1925-1929, que será galardoado com o prêmio de poesia Graça Aranha.

Em 1932, publica na Revista Nova de Paulo Prado, com data de 1931, o auto  Bumba-
meu-poeta e, em Edição de Ariel, no Rio de Janeiro, o conjunto de poemas-piada da  História
do Brasil.

Em 1934, a morte de Ismael Nery desencadeia em Murilo uma crise existencial e religiosa
que o devolve a um cristianismo das origens, de raiz evangélica. Testemunho da crise será o
livro  de  poemas  Tempo  e  eternidade,  publicado  naquele  mesmo  ano  (Porto  Alegre,  Globo), juntamente com o amigo poeta, médico e pintor Jorge de Lima, a quem ficará sempre ligado nos  anos  que  virão,  oferecendo-lhe,  em  1951,  o  título  para  a  suma  poética  do  fim  da  vida: Invenção  de  Orfeu. 

Em 1938, publica no Rio (Coop. Cultural  Guanabara)  a  Poesia  em  pânico, interessante  exemplo  de  “surrealismo  lúcido”,  em  que  seu  antigo  desejo  existencial  de “aliança dos extremos” encontra uma atuação original no plano da poesia, que se distancia, com seu visionarismo diurno e apocalíptico, do onirismo bretoniano. Com o alastramento do segundo conflito mundial, o grande historiador e poeta português Jaime Cortesão, opositor do ditador Salazar, fixa-se, em 1940, com a família no Rio, e Murilo Mendes conhece Maria da Saudade  Cortesão,  filha  do  historiador,  com  a  qual  virá  a  casar-se  em  1947. 

Em  1941  sai  O visionário  (Rio  de  Janeiro,  José  Olympio).  Em 1943, Murilo  Mendes  é  internado  com tuberculose pulmonar num sanatório de Correia.

Sai, em 1944, numa bela edição com capa de Santa Rosa e ilustrações de Portinari, o livro  As  metamorfoses  (Rio  de  Janeiro,  Ocidente), entre  os  mais  significativos  do  poeta,  que  vai  alcançar  grande  fortuna  nacional  e internacional  entrando,  com  seus  poemas  mais  famosos,  em  várias  antologias.  No entanto, em 1945, aparecem, numa edição conjunta, os poemas do Mundo enigma, compostos em 1942 e  dedicados  a  Maria  da  Saudade  Cortesão,  e  Os  quatro  elementos,  inéditos  desde  1935.  E, afinal,  em  1947,  é  publicada,  pela  Agir  do  Rio  de  Janeiro,  Poesia  liberdade,  obra  central,  por compromisso  civil  e  qualidade  poética,  na  produção  do  escritor.  O  remate  do  volume,  o poema  “Janela do caos”, que será depois traduzido para italiano por Giuseppe Ungaretti, é publicado em Paris, em 1949, numa edição de luxo ilustrada com seis litografias de Francis Picabia. 

Nesta  altura,  Murilo  Mendes  já  tem  no  Brasil  uma  sua  imagem  fixada  numa mitografia pessoal composta de anedotas que falam do poeta, surrealista na vida ainda mais do  que  na  obra,  o  qual  abre  o  guarda-chuva  durante  os  concertos  para  protestar  contra  as más execuções, ou que, durante a guerra, envia telegramas a Hitler protestando em nome de
Mozart contra a invasão de Salzburg por parte das tropas alemãs. Cada um tem sua anedota
sobre o poeta. E é nesta altura que Murilo Mendes, depois de ter preparado para a publicação
no  Rio  o  que  ele  julga  constituir  a  sua  suma  poética  até  então  (Poesias  1925-1955,  José Olympio,  1959),  deixa  o  Brasil,  passando  a  viver  na  Europa,  onde  vai  construir  nova  vida  e nova imagem de si dentro de um contexto internacional.

Entre 1952 e 1956, Murilo Mendes e Maria da Saudade realizam a sua primeira estadia na
Europa  com  uma  missão  cultural  em  Paris,  na  Bélgica  e  na  Holanda.  Até  que,  em  1957,  o poeta e sua esposa mudam-se definitivamente para Roma, onde Murilo vai ocupar o lugar de
professor de cultura brasileira na Universidade. A sua casa na via del Consolato 6, onde se
reúnem escritores e artistas plásticos, transforma-se num ponto de encontro e de referência
para intelectuais de todos os países. A partir deste momento, a própria produção poética de
Murilo muda de rumo.  O convívio em Roma com poetas como Ungaretti, Palazzeschi  ou
Ruggero Jacobbi, que se tornam seus amigos e tradutores, na Espanha com Dámaso Alonso
ou  Ángel  Crespo,  eles  também  seus  tradutores,  a  correspondência  diária  com  poetas  e
escritores franceses ou de língua francesa, mas sobretudo a amizade com os artistas plásticos
que frequentam a sua casa e de que ele se faz  “apresentador” em poemas em verso ou em
prosa publicados em catálogos de exposição, alargam o seu horizonte de interesses. Como a
pintura  contemporânea,  a  sua  poesia  torna-se  mais  abstrata,  seca,  intelectualizada:
acompanha  ou  às  vezes  precede  os  movimentos  brasileiros  dos  poetas  inventores  da  sua própria  forma  poética,  como  João  Cabral,  o  grande  amigo  de  sempre,  mas  também  os concretistas  de  São  Paulo,  Haroldo  de  Campos  em  especial. 

Começam  a  sair  na  Itália,  na França e na Espanha traduções e antologias das suas obras. A primeira é a Siciliana, em 1959, com  prefácio  de  Ungaretti,  seguida  pela  antologia  da  Poesia,  traduzida  também  com colaboração de Ungaretti. O nome do poeta torna-se conhecido na Europa. Ele apresenta em Florença a grande exposição de Alberto Magnelli, enquanto em Lisboa é publicada, em 1964, pela  Livraria  Morais,  a  sua  Antologia  poética. 

No entanto, o poeta, que desde a aparição no Rio, em 1945, de um volume de aforismas, O discípulo de Emaús, só tinha publicado livros de poesia,  volta  à  prosa  com  um  livro  de  memórias  infantis,  A  idade  do  serrote  (Rio  de  Janeiro, Sabiá) a que, dois anos depois, em 1970, segue a publicação, em São Paulo, da  Convergência, em  que  aparece  recolhida  a  poesia  composta  entre  1963  e  1966.  A  parábola  europeia  e italiana continua a ascender até atribuição a Murilo Mendes, em 1972, pelo livro antológico Poesia  Libertà,  traduzido  e  organizado  por  Ruggero  Jacobbi,  do  prestigioso  Prêmio Internacional  Etna-Taormina. 

No Brasil, porém, Murilo Mendes parece ter sido esquecido.  Há poucas exceções: Laís Correia de Araújo publica em 1972 sua monografia sobre o poeta, e a José Olympio lança no Rio o  Poliedro, em prosa. Mas os inéditos, de prosa especialmente, encontram cada vez mais difícil colocação. E à morte do poeta, acontecida em Lisboa, em 13 de  agosto  de  1975,  durante  as  férias  de  verão  que  ele  costumava  passar  com  Maria  da Saudade na casa que tinha sido do sogro, Jaime Cortesão, os volumes ainda não publicados e os  papéis  destinados  a  integrar  novos  volumes  amontoam-se  na  casa  de  Roma. 

Murilo  é sepultado  no  Cemitério  dos  Prazeres  de  Lisboa,  cidade  em  que  passa  a  residir  sua  viúva Maria da Saudade. Desde então, durante 19 anos, Luciana Stegagno Picchio, que tinha sido colega  de  Murilo  nas  Universidades  de  Roma  e  de  Pisa  e  amiga  de  convívio  diário  com Murilo e Maria da Saudade durante a sua permanência em Roma, vai editando os inéditos: antes o volume dos poemas italianos  Ipotesi  (Milão,  1978),  em  seguida  a  antologia  de  prosa Transistor  (Rio  de  Janeiro,  1980),  e  as  duas  edições  críticas  dos  Poemas  1925-1957,  (Rio  de Janeiro, 1988) e da  História  do  Brasil   (Rio  de  Janeiro,  1991). 

Pouco  a  pouco,  o  interesse  pela obra  do  poeta  mineiro  vai  ressurgindo,  especialmente  entre  os  jovens  que  apreciam  a  sua absoluta  liberdade  de  pensamento  e  de  expressão,  o  seu  humour  às  vezes  tocado  pelo desespero, a sua contínua capacidade de invenção e renovação.

Murilo Mendes: melhores poemas [recurso eletrônico] / Murilo Mendes; seleção Luciana Stegagno Picchio; [direção de Edla Van Steen]. - São
Paulo: Global, 2012.
recurso digital (Melhores poemas)
 
     
   
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