CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)

Poetisa, professora e jornalista
Nasceu: 07/11/1901
Cidade: Rio de Janeiro - RJ
Mov. Literário: Modernismo
Faleceu: 09/11/1964
no Rio de Janeiro - RJ

Tendo feito aos 9 anos sua primeira poesia, estreou em 1919 com o livro de poemas Espectros, escrito aos 16 anos.

"Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."

Considerada pela crítica a mais alta personalidade feminina da poesia brasileira e um dos maiores nomes de nossa literatura, em qualquer época, sem distinções preconceituosas de sexos, Cecília Meireles deixou uma obra poética longa, intensa e perturbadora. Foram quase trinta livros de versos, um roteiro que se inicia sob a influência parnasiana e simbolista, se depura numa luta permanente pela expressão pessoal, até atingir aquela altitude para a qual quaisquer definições são inconsistentes: a poesia pura.

A poesia de Cecília Meireles se caracteriza pela ânsia de apreensão e compreensão total do fenômeno da vida: "Preparei meu verso/ com a melhor medida:/ rosto do universo,/ boca da minha vida". Na tentativa de captar a Verdade, diluída em milhares de verdades, ela vai de horizonte a horizonte, aborda temas variados, expressando-se ora em trovas singelas ora em poemas de um hermetismo cerrado, por vezes com angústia. Até alcançar a libertação, se não total, pelo menos a possível no mundo: "Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras/ a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira".

Cecília era exatamente o oposto do estereótipo que carrega um poeta. Não fumava, não jogava e nem bebia. Seguia à risca uma dieta macrobiótica. Dormia e acordava cedo, a tempo de fazer o café da manhã, sempre com waffles fresquinhos molhados no mel. Dava ordens aos empregados e trancava-se na biblioteca de manhã e à tarde, metodicamente, com um único intervalo para o almoço. Depois descansava ouvindo músicas medievais, ibéricas e indianas. Colecionava colheres e xícaras de café. Não gostava de aparecer em público, preferindo o recolhimento. Havia exceções. Duas ou três vezes por ano ela mesma preparava um banquete para recepcionar os amigos intelectuais. Nos fins de semana, a família se deliciava com pratos típicos de vários países - um cardápio tão vasto quanto a lista dos lugares que conheceu.

Caseira, introvertida e voltada para a meditação, Cecília sempre manteve seu espiritualismo exacerbado. Em 1961, descobriu que tinha câncer. Contam que quando estava internada no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro onde morreu em 1964, três indianos entraram na ante-sala e ainda tentaram dar as últimas palavras de alento à poetisa, sumindo em seguida. Ninguém confirma a história. Parece mito, mas prova que Cecília Meireles foi adorada por todos que a conheceram. No mundo inteiro.

Numa das viagens a Portugal, em 1935, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.