Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles) nasceu aos 7 dias do mês de novembro do ano de 1901, na capital do Rio de Janeiro. No ano de 1922, ainda no início de sua carreira como escritora, Cecília Meireles participa de uma corrente literária chamada de “espiritualista”, pois são poemas de linguagem religiosa, voltados ao catolicismo. Este grupo dedicado à poesia religiosa católica colaborava para as revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Mais tarde, ao afastar-se dessa corrente, Cecília aproxima-se das inspirações neo-simbolistas e escreve seus próximos livros, na seqüência: Nunca mais...e Poemas dos poemas de 1923 e Baladas para El-Rei de 1925. Pouco antes, em 1922, casa-se com um pintor português, com quem tem três filhas. Em 1935, fica viúva, após o suicídio do marido. Anos depois casa-se novamente com um médico. A partir de 1930, a professora-poetisa começa a lecionar literatura brasileira em universidades. Na Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), lecionou Literatura Luso-Brasileira. Sua atividade cultural se intensifica a partir de 1934, quando visita Portugal e desenvolve atividades acadêmicas e culturais nas cidades de Lisboa e Coimbra. Nos próximos anos, de 1940 e 1950, intensifica ainda mais suas atividades literárias fora do país: leciona no Texas, faz conferências no México, recebe prêmio de distinção no Chile, participa de simpósio na Índia, onde recebe título de mérito. Segue os anos fazendo viagens, conferências e ministrando cursos. A poetisa reflete em sua obra variações entre temas: sonhos, fantasia, solidão, padecimento e tempo. Este último se faz presente em muito de seus poemas, enfatizando a transitoriedade das coisas. "Sou capaz de dar a volta ao mundo a pé", costumava dizer Cecília Meireles. Nem que esse mundo fosse a sala de jantar da casa do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Depois de trabalhar a tarde inteira, perguntava às três filhas pequenas se haviam se comportado bem durante o dia. Verdade ou não, a resposta afirmativa era a senha para se vestirem todas a caráter e viajarem pelos quatro cantos da Terra. Saíam da cozinha, ficavam dando voltas em torno da mesa da sala de jantar e estacionavam na frente de cada objeto. Visitavam lojas imaginárias, faziam expedições ao Oriente olhando os tapetes persas e terminavam a "viagem" carregadas de compras e fantasia. Assim era a poetisa Cecília Meireles, mulher imaginativa, uma viajante percorrendo as civilizações em busca de sabedoria. Passou o ano de 1953 realizando um sonho antigo: conhecer a Índia e o Paquistão, países que tanto admirava. Para cada lugar, uma crônica. E algumas surpresas. Como o bazar de um pitoresco vilarejo paquistanês onde os barbeiros atendiam seus clientes em plena rua e vendedores ofereciam colírios feitos à base do pó raspado de uma pedra. Além de poetisa, Cecília mostrava sua faceta jornalística na página de educação que pilotou durante quatro anos no Diário de Notícias. "Foi ela quem promoveu a estréia de Carlos Lacerda no jornalismo, então um adolescente", conta a biógrafa Valéria Lamego. Mais tarde governador da Guanabara, Lacerda homenageou a madrinha de profissão inaugurando a Sala Cecília Meireles, no centro do Rio. Os artigos só foram interrompidos pelas viagens a Portugal (onde a consideram a maior poetisa da língua) e aos Estados Unidos, onde lecionou folclore brasileiro na Universidade do Texas. Abalada pelo suicídio do marido, em 1935, fez de tudo para reencontrar a felicidade. Cecília consultou uma astróloga, que recomendou: deveria tirar um "L" do sobrenome "Meirelles". Acreditando no valor cabalístico da letra, passou a assinar seus artigos com a nova forma, mesmo sem mudar os documentos. Mas preferia não entrar em detalhes quando lhe pediam explicações: "Muita gente me pergunta se deixei de escrever com letra dobrada devido à reforma ortográfica. Quando estou com preguiça de explicar, digo que sim". A felicidade finalmente chegou no segundo casamento, com o educador Heitor Grillo. Tinha ido entrevistá-lo e não conseguiu anotar uma linha. A matéria do Observador Econômico e Financeiro já denunciava a paixão. A segunda união levantou o astral da poetisa que continuou escrevendo crônicas até o fim da vida, em jornais como A manhã e Folha de S. Paulo. ABAIXO, REPRODUÇAO - NA ÍNTEGRA - DA BIOGRAFIA FEITA POR LUCIA HELENA DE OLIVEIRA VIANNA - Professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense (aposentada) e Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Pesquisa) e publicado no site www.vidaslusofonas.pt QUANDO TUDO ACONTECEU... •1901: 7 de novembro, Rio de Janeiro: nasce Cecília Meireles. Seus pais: Carlos Alberto de Carvalho Meireles e Matilde Benevides. Ambos morreram cedo: o pai, três meses antes do nascimento da filha; a mãe faleceu quando Cecília tinha 3 anos de idade. Os avós paternos: João Correia Meireles, português, funcionário da Alfândega do Rio de Janeiro, e D. Amélia Meireles, ambos falecidos. A avó materna, D.Jacinta Garcia Benevides, açoriana, cuidou da menina, como tutora. SEUS LIVROS Espectros, 1919 HISTÓRIA DA VIDA “- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz. (...)” Lá está ela. Janela aberta ao sol. Observo seu vulto à distância. Percebo a respiração profunda que sorve lentamente o ar fresco e puro da manhã. Debruça-se sobre o parapeito e fica a contemplar o jardim. Parece estar completamente feliz. Respeito este momento de sua intimidade, espero um tanto para me aproximar e provocar esta conversa imaginária, mas perfeitamente possível. Ouço o chamado em voz quase imperceptível: Vinde ouvir a história da vida... INFÂNCIA Fica órfã muito cedo. Não chega a conhecer o pai - Carlos Alberto de Carvalho Meireles - falecido aos 26 anos, três meses antes de ela nascer. Não conheceu os irmãozinhos, Vítor, Carlos e Carmem: “- Todos morreram antes de meu nascimento. E minha mãe (Matilde Benevides Meirelles) se foi quando eu tinha apenas três anos. Fui criada por minha avó materna, Jacinta Garcia Benevides, nascida nos Açores, Ilha de São Miguel”. Essas e outras perdas ocorridas na família dão à pequena Cecília intimidade com a morte e a certeza de que nada é para sempre. Atributos para sua reserva lírica: “- Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Preciso deles para escrever.” Enquanto borda, D. Jacinta canta cantigas antigas da Ilha de São Miguel. No imaginário infantil começa a tecer-se o tapete feito de lirismo popular: a voz da avó vai lhe ensinando os enigmas da vida cifrados nos ditos populares: - Nem por muito madrugar amanhece mais cedo, “- Tudo quanto recebi, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, - perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível ...”. À memória desta avó mítica, falecida em 1932, Cecília dedica uma “Elegia”: “Minha primeira lágrima caiu dentro de teus olhos”. Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua. Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? Mas também isso foi inútil, como tudo mais. (OC,465) Das perdas tão precoces fica-lhe a consciência do efêmero...: Sei que canto. E a canção é tudo, (Motivo, Viagem) ... e o desejo de buscar algo irrevelado e distante: o sonho. Pus o meu sonho num navio (Canção, Viagem) Em 1910 conclui o curso primário na Escola Estácio de Sá com distinção e louvor. Recebe das mãos do poeta Olavo Bilac medalha de ouro, com o nome gravado. Sete anos depois termina a Escola Normal, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Segue estudando sempre: música, no Conservatório Nacional, canto, violino, estuda línguas e pesquisa sobre o Oriente – história, línguas, filosofia. É PROFESSORA COMO A MÃE “(...) Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir (...) foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, (...) - e me sentia completamente feliz.(...)” - Minha mãe tinha sido professora primária (a primeira professora a formar-se no Brasil) e eu gostava de estudar nos seus livros. Velhos livros de família que me seduziam muito. Assim como as partituras e livros de música. A educação (...) é uma causa que abraço com paixão assim como a poesia. A criança é eterno motivo de ternura e para ela escreve Criança, meu amor (1927) e Ou isto ou aquilo (1964, post mortem): Ou se tem chuva e não se tem sol, Quem sobe nos ares não fica no chão, A Educação é uma causa e um compromisso. É a sua militância. Exerce o magistério até 1951 (aposenta-se como Diretora de Escola). Defende os ideais da Nova Escola, propostos por Fernando Azevedo e Anísio Teixeira: desejam uma escola que proporcione o desenvolvimento integral da criança. De 1930 a 1934 dirige seção diária sobre Educação no jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. O seu entusiasmo leva-a a criar uma Biblioteca Infantil, no Pavilhão Mourisco, em Botafogo. É a primeira no gênero, germe para inúmeras outras que se espalham pelo Brasil. MAS COMO DESCREVER CECÍLIA? Eis como ela nos responde: - Acho que não saberia fazer isso fora da poesia. Mais me agrada e diverte um flash que o João Condé, publicou nos Arquivos Implacáveis, na revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, em 31 de dezembro de 1955: “Não tem medo de viajar de avião em viagens longas. Nome: Cecília Meireles - Nasceu no Distrito Federal (hoje cidade do Rio de Janeiro) TRAJETÓRIA POÉTICA 1919. Publica o primeiro livro, Espectros. Recebe críticas elogiosas. O respeitável João Ribeiro antevê futuro promissor para a jovem escritora: “em breve, e sem grande esforço, poderá lograr a reputação de poetisa que de justiça lhe cabe.” CECÍLIA E O MODERNISMO Como se situa Cecília no movimento renovador na literatura e nas artes que eclode com a Semana de Arte Moderna de 1922? Que lugar ocupa junto aos poetas revolucionários dessa década, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo - os poetas paulistas, alinhados em torno da Revista Klaxon? Não, Cecília Meireles não está com eles nessa primeira hora. Não participa diretamente do movimento de ruptura e vanguardismo deflagrado pelos paulistas. Seus primeiros livros merecem a atenção de um outro grupo. O dos poetas da Revista Festa, do Rio de Janeiro, Andrade Murici, Tasso da Silveira, Murilo Araújo. Poetas que defendem uma poesia imbuída de elementos espirituais, de preocupações transcendentes, filosóficas e religiosas. Nos livros da década de 20 - Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), assim como Balada para El-Rei (1925) - ainda ressoam os tons simbolistas e algum formalismo parnasiano. Fiel a si mesma, sua intuição lírica não se prende a correntes literárias: Teus olhos tristes, d’ Agnus Dei, (Oferenda, Balada para El-Rei) Com o livro Viagem, de 1938, Cecília encontra seu estilo definitivo. O verso melódico sustenta os motivos fundadores de sua poética – sonho, solidão, mar, canção, melancolia, nuvens, céu, morte... Recebe o Prêmio Poesia da Academia Brasileira de Letras. No julgamento, Cassiano Ricardo argumenta em favor dessa obra e salienta a modernidade de sua fatura. Em 1939 Mário de Andrade escreve um artigo conclusivo sobre a poeta:. (...) Jamais a poesia nacional alcançou tamanha evanescência tanto verbal como psíquica. (...) Cecília está construindo sua trajetória pública. Firma-se entre os maiores poetas nacionais. Para Eliane Zagury, a poeta representa “a mais pura tradição lírica voltada sobre si mesma, autotematizada.” · E A VIDA PESSOAL, COMO VAI? Jovem, elegante e muito bonita, causa frisson quando entra na Livraria São José, no Centro do Rio, à procura de algum livro. Na roda de escritores que freqüentam a tradicional casa de livros, olhos compridos seguem-na. Perguntam entre si o que faz a linda mulher com um livro tão pesado - o Corão. Entre 1919 e 1920 Cecília conhece na redação da Revista da Semana um jovem artista plástico português – Fernando Correia Dias – capista de primeira, ceramista, ilustrador e artista gráfico, reconhecido em Portugal e já amigo de personalidades literárias e artísticas no Brasil, como Álvaro Moreyra, Olegário Mariano, Menoti Del Picchia e Guilherme de Almeida.. Uma poeta, jovem e bela; um artista culto, viajado e sedutor. Bons personagens para uma história de amor. Casam-se em 24 de outubro de 1922. Ela, com 20 anos, ele com 29. De novo a presença lusa na vida de Cecília. Ele faz belas ilustrações para os livros dela. Ela o presenteia com três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda (esta virá a ser uma famosa atriz do teatro brasileiro). Em casa Cecília é uma mãe como as outras. Ralha, disciplina, e faz bolo coberto com calda de laranja. À noite, depois do jantar, reunidas na sala de visitas, lê histórias para as meninas (ah, ainda não havia a televisão nas nossas vidas!), pega do violão e dedilha cantigas, canta algumas, ou descreve os detalhes deste ou daquele objeto que ornamenta a casa. O SONHO VIOLENTADO Em 1934 a mulher brasileira conquista o direito ao voto. Cecília não se encontra entre aquelas que lutaram nas praças públicas por esse direito. Por quê? Porque é outro o seu campo de ação social. Ela está nos jornais e nas escolas. Nesse mesmo ano é chamada para dirigir o Centro Infantil, a ser instalado no Pavilhão Mourisco, em Botafogo. Vê no convite a possibilidade de pôr em prática as idéias sobre o novo modelo de educação que tanto tem defendido na imprensa. Constrói aí a primeira Biblioteca Infantil da cidade do Rio de Janeiro. Correia Dias transforma o porão numa cidade encantada. Ali as crianças podem afinal exercer livremente a sua imaginação em atividades criativas várias: pintura, leitura, música, desenho. O sonho, porém, como todo sonho, não dura muito. Intrigas políticas levam ao fechamento da biblioteca. Violenta devassa, promovida pela Polícia Política do governo de Getúlio Vargas, destrói inclusive cerâmicas de inspiração marajoara criadas por Correia Dias. A explicação para tal vandalismo: livros, considerados perigosos à educação infantil, entre eles, (pasmem!) As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Uma ironia, um contra-senso, acontecer isso logo com ela. Apesar de progressista, sempre fora cética demais para aderir a qualquer partido político e bastante espiritualista para deixar-se seduzir pelo marxismo. Coisas da ditadura. NAVEGAR É PRECISO... “- Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.” De 1934 até sua morte, Cecília Meireles faz inúmeras viagens. Nesse ano visita Portugal pela primeira vez, a convite da Secretaria de Propaganda desse país. Em 1940, conhece os Estados Unidos: dá curso de Literatura Brasileira na Universidade do Texas. Fala sobre folclore e educação no México. Em 1944 visita Uruguai e Argentina. Em 1951 volta à Europa: França, Bélgica, Holanda, Portugal.1952: Chile. 1953: Índia, Goa, Itália. 1954: Europa e, afinal, conhece os Açores. 1957: Porto Rico. 1958: Conferência em Israel. Na Índia, recebe o título Doutor Honoris Causa da Universidade de Deli. Sua “Elegia a Gandhi” é traduzida para várias línguas: (...) Volta das viagens com a mala repleta de versos: Poemas escritos na Índia, Poemas italianos, Oratórios de Santa Clara... MAR PORTUGUÊS Na agenda de viagens Portugal ocupa um lugar de relevo. 12 de outubro de 1934. O Diário de Lisboa estampa foto de Cecília e Fernando ainda a bordo do Cuyabá. Cais de Alcântara. Desembarcam em Lisboa recebidos pela fina flor da intelectualidade lusa. Lá estão a esperá-los aqueles que se tornarão amizades duradouras: o crítico José Osório de Oliveira, o ilustrador Pedro Bordalo Pinheiro, Simão Coelho Folho, o crítico de arte Guilherme Pereira de Carvalho, Manuel Mendes, Carlos Queiroz. No Estoril aguarda-a a poeta Fernanda de Castro, que há muito reitera os convites para que a brasileira faça conferências e palestras nas universidades portuguesas. “os amigos são uma forma animada de poesia” Portugal, a pátria ancestral. A herança açoriana, o casamento com um artista português de prestígio, agregados à qualidade de seu lirismo, abrem-lhe caminho para o reconhecimento público em terra lusitana . Contatos com a imprensa, com editores, com críticos. Capitaliza reconhecimento e admiração. Para Jorge de Sena, como Pessoa ou Rilke, Cecília era “filha moderna do simbolismo antigo”. TANTO SUCESSO E UMA DECEPÇÃO Dezembro. Noite chuvosa e fria em Lisboa. No café A Brasileira, no Chiado, há quase duas horas Cecília e o Correia Dias esperam. Esperam por aquele que Cecília Meireles tanto deseja conhecer e sobre cuja poesia tem sido a primeira a dar notícia no Brasil. Quase duas horas e nada! Fernando acha melhor desistir: - Vamos, Cecília, ele não virá! - Podemos aguardar um pouco mais, quem sabe, ocorreu um imprevisto... - Não, é perda de tempo. Eu o conheço bem, se não veio até agora, não virá mais. De volta ao Hotel, recebem o pequeno volume, com os dizeres: “A Cecília Meyreles, alto poeta, e a Correia Dias, artista, velho amigo e até cúmplice (vide "Águia”, etc... ), na invocação da Apolo e Atena, Fernando Pessoa, 10 –XII –34. É um exemplar de Mensagem, recentemente publicado. Um cartão lacônico acusa o recebimento: “Cecília Meireles - cumprimenta e agradece.” Dez anos depois, escreve ao amigo Armando Costa Rodrigues : “Como lamento não o ter conhecido!”. E num diálogo surdo com aquele que tanto admirava, rebate: “Mas tu preferes a penumbra dos cafés sonolentos, em cujas mesas todos os poetas da Lusitânia fincam algum dia o cotovelo e, fronte apoiada ao punho, criam aqueles sonhos que eles mesmos não governam (...)” (Evocação lírica de Lisboa, crônica) DE VOLTA AO RIO Na vida pessoal, sucedem-se as crises de depressão do marido. Crises que o levam ao suicídio em 19 de novembro desse ano. Foram “13 anos de angústias sobre essa tragédia, tentando dominá-la”. Uma “Canção póstuma” dá a medida da dor sublimada em poesia: Fiz uma canção para dar-te; É um suspiro tímido e breve Vim cantar-te a canção do mundo, E estou como alguém que chegasse E agora fecho grandes portas Por isso é tão desesperada (Canção póstuma, Retrato natural) Nos anos seguintes, viúva, sem nenhum parente, com três filhas para educar, as dificuldades econômicas exigem-lhe intenso trabalho. Dá aulas de Técnica e Critica Literária, Literatura Comparada e de Literatura Oriental na Universidade. Trabalha ainda no Departamento de Imprensa e Propaganda onde dirige a revista Travel in Brazil."E AQUI ESTOU, CANTANDO" Fins de 1938, início de 1939. Abre-se novo ciclo de realizações. Reorganização da vida afetiva e familiar. Conhece o médico Heitor Grilo. Casam-se em 1939. Consagração na vida pública: Viagem é publicado em Lisboa. A poeta segue sua trajetória. Eu canto porque o instante existe Irmão das coisas fugidias, Se desmorono ou se edifico, Sei que canto. E a canção é tudo. (Motivo) O primeiro dos vários auto-retratos registra precocemente os efeitos das mudanças:Eu não tinha este rosto de hoje, Eu não tinha estas mãos sem força, Eu não dei por esta mudança, (Retrato) SOBRE O VAZIO DAS PEDRAS, CONSTROI SUA CATEDRAL As publicações se sucedem. A década de 40 será das mais produtivas na vida da poeta. Publica Vaga Música em 1942. Em 1945, Mar Absoluto; Retrato Natural em 1949. De um livro ao outro o caminho se faz sem tropeços, fiel aos motivos fundadores de seu lirismo: mar, música, melancolia, orfandade. É tempo de guerra. “Tempo de homens partidos”, canta Carlos Drummond de Andrade, contemporâneo e admirador da poeta. Como ele Cecília proclama a contraditória condição humana: Nós merecemos a morte, (“Lamento do oficial por seu cavalo morto”) No livro de 1949, poemas mais modernos e despojados expõem o caráter afetivo da participação de Cecília nas dores do mundo: Dez bailarinas deslizam Vão perpassando como dez múmias (“Balada das dez bailarinas no cassino”) No ano de 1945 muda-se para a casa do Cosme Velho, onde viverá até o fim de seus dias. Nos anos seguintes dedica-se a escrever peças de teatro (A nau catarineta, 1946; O menino atrasado, 1966). Inicia as pesquisas sobre a época colonial brasileira . Tem em mente ambicioso projeto: um épico que resgate lendas, tradições, misticismos em torno da frustrada Conjuração Mineira. O folclore, outra de suas paixões, ocupa a agenda no ano de 1948. Cecília é tratada como especialista na Comissão Nacional de Folclore. E em 1951 secretaria o Primeiro Congresso Nacional de Folclore, no Rio Grande do Sul. DE NOVO EM PORTUGAL Os Açores, enfim. No ano de 1951 pode atender aos convites sempre renovados dos velhos amigos, Armando Cortes-Rodrigues e José Bruges. A visão real da Ilha de São Miguel parece não lhe causar surpresa : “A paisagem é como se fosse a do meu quintal, na infância.” Emoção ao conhecer sua alma irmã de longa e profunda correspondência (246 cartas): AQUELE que caminha ao longo das praias (“Inscrição natalícia”) Ainda em 1951, publica Amor em Leonoreta e, no ano seguinte, Doze noturnos de Holanda & O Aeronauta. Trabalha incansavelmente na finalização da pesquisa sobre a história de Vila Rica e da Conjuração Mineira.AFINAL A OBRA PRIMA “Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. (...)”.. Corre o ano de 1953. Depois de exaustivo trabalho, o Romanceiro da Inconfidência está pronto. Cinco anos passou mergulhada no século XVIII, construindo uma “narrativa rimada” (rimances) que remete o leitor à trágica história do ciclo do ouro em Vila Rica (a Inconfidência Mineira). Alcança fixar em poesia a história do alferes Tiradentes e dos intelectuais e poetas traídos por delatores. Primeiro grito de liberdade da terra colonial. Resposta definitiva àqueles que a acusavam de escassa brasilidade. Liberdade - essa palavra Brasil mineiro. Minas de ouro. Riqueza imensa. Ambição maior. Eis o cenário onde tudo acontece: EIS a estrada, eis a ponte, eis a montanha Eis o cavalo pela verde encosta Seu verso soa consoante ao ritmo dos poetas árcades Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, personagens dos acontecimentos rememorados. (...) (...) Tudo me fala e entendo: escuto as rosas por onde o passo da ambição rugia; Celebra o poder transfigurador da palavra: Ai, palavras, ai, palavras, (...) A liberdade das almas, (...) Detrás de grossas paredes, (...) Ai, palavras, ai, palavras, Vê sua obra poética reunida e publicada pela Editora Aguilar, no ano de 1958. Faz Conferência em Israel sobre cultura brasileira. O TEMPO HUMANO EXPIRA... “Estudo a morte, agora (OC,1213) Solombra (1963), neologismo que dá o tom dominante deste último livro: solidão e melancolia. “Eu – fantasma - que deixo os litorais humanos, 1964 COMO AS GAIVOTAS QUE SOBEM TÃO LIVRES... Deixa cinco netos: Ricardo (filho de Maria Elvira), Alexandre, Fernanda Maria e Maria de Fátima (de Maria Matilde) e Luís Heitor Fernando (da atriz Maria Fernanda). O marido, Heitor Grilo, morre em 1972. A morte não consegue estancar o fluxo de publicações e homenagens. Em 1965, a Academia Brasileira de Letras confere-lhe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. E a principal sala de concertos do Rio de Janeiro passa a ser denominada “Sala Cecília Meireles”. Seus poemas têm sido intensamente musicados, cantados por intérpretes do Brasil e Portugal. Deixa vasto material inédito: poemas, traduções, peças de teatro, correspondências, antologias, crônicas de viagem, conferências, periodismo e tantos outros escritos. UMA FARPA, UMA DESCONFIANÇA Esta obra monumental motiva uma farpa irônica do poeta Mario Faustino: “D. Cecília publica demais. O melhor que se poderia fazer em prol de sua glória seria preservar o "Romanceiro” completo, fazer uma antologia de seus cinqüenta grandes poemas (“Mar absoluto” seria o maior contribuinte) e queimar o resto. Mas não no esqueçamos de perguntar; quantos poetas em nossa língua já assinaram cinqüenta grandes poemas? A outra pergunta que nos ocorre: por que D. Cecília publica tanto?” ( Trecho de “Anchieta aos concretos”, de Mário Faustino) Mas sob o peso do monumento, onde fica a verdadeira Cecília? Como apostar na fidelidade de uma BIOGRAFIA? Escreverás meu nome com todas as letras, Repetirás o que me ouviste, (...) Somos uma difícil unidade Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, Novos e antigos todos os dias, E por entre as circunstâncias fluímos, Obras: * Espectros, 1919 Outros textos * 1947 - Estréia "Auto do Menino Atrasado", direção de Olga Obry e Martim Gonçalves. música de Luis Cosme; marionetes, fantoches e sombras feitos pelos aluos do curso de teatro de bonecos. |