Fernanda de Castro (Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro), nasceu em Lisboa a 8 de Dezembro de 1900 e faleceu a 19 de Dezembro de 1994. Romancista, poeta e conferencista portuguesa, conhecida pelo seu nome de solteira, com vasta e diversificada obra, escreveu poesia, literatura infantil, romance e memórias. Filha de um oficial da Marinha ficou órfã de mãe aos doze anos. Estudou em Portimão, Figueira da Foz e Lisboa, tendo frequentado, nesta cidade, os Liceus D. Maria Pia e Passos Manuel. Começou por escrever livros infantis com sucesso nomeadamente "Mariazinha em África", 1926; "A Princesa dos Sete Castelos" e "As Novas Aventuras de Mariazinha", 1935. Conheceu África que transmitiu com talento nos seus livros. Casada com António Ferro, jornalista e homem forte do regime de Salazar, promoveu a cultura no país e no estrangeiro em importantes exposições.

Criou e desenvolveu, nos anos trinta, a Associação Nacional dos Parques Infantis, dadas as suas excelentes relações com as mais altas instâncias governamentais. A sua poesia é francamente inspirada e está de novo a ser divulgada. Destacam-se "Asa no Espaço", 1955; "Poesia I e II", 1969, "Urgente", 1989. David Mourão-Ferreira elogia vivamente a sensualidade feminina dessa poesia.

Fernanda de Castro recebeu, em 1969 o Prémio Nacional de Poesia e recebera em 1945 o Prémio Ricardo Malheiros pelo romance "Maria da Lua". Escreveu até praticamente ao fim da vida, embora nos últimos anos a doença a retivesse na cama. Foi avó da escritora Rita Ferro. Escreveu “Ao Fim da Memória: Memórias (1906-1986)”, 1986.

Qualquer contacto com a obra de Fernanda de Castro põe-nos em diálogo com uma tensão fundamental, o binómio interioridade/exterioridade. Se isso é verdade para a poesia, dir-se-a também evidente na ficção, no género memorialístico, no teatro, na literatura juvenil (Mariazinha em África contará com 11 edições) ou mesmo na tradução de autores como Katherine Mansfield ou Rilke, num total que atinge os 30 títulos.

A escrita de Fernanda de Castro mulher do escritor e jornalista António Ferro, que viria a ser director do Secretariado da Propaganda Nacional de Salazar, depois denominado SNI (Secretariado Nacional da Informação), e ministro plenipotenciário de Portugal em Berna e em Roma - guarda em si o vivido, o secreto, o não-dito decantado numa consciência mais ou menos remota que olha, sorridente, a infância, a juventude, a maturidade. E fá-lo a partir de uma experiência existencial, "longa sede, longa subida", a dor "cansada de sofrer", "o coração de tinta e de papel".

Escritora de Lisboa, na sua longa e premiada actividade literária, iniciada em 1919 com AnteManhã, e desenvolvida até poucas semanas antes de morrer, a si mesma se definiu como "sebastianista por vocação e nascimento" (ler na página ao lado excertos de entrevistas). Quis assim justificar Fernanda de Castro os "esforços de uma nacionalização efectiva do programa literário que a sua geração adoptou, o modernismo".

A essa filiação estética não é estranha a figura de António Ferro, obreiro da imagem, a um tempo vanguardista e conservadora, do salazarismo nas décadas de 30 e 40.

Memórias

Presença assídua nos diversos palcos das letras e artes, dentro e fora de Portugal, organizadora de tertúlias na sua célebre casa do Bairro Alto, situada num prédio - onde viveram Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, António Ferro, com quem se casou em 1922, Bernardo Marques e José Gomes Ferreira -, desses ambientes Fernanda de Castro deixará impressivo relato nos dois volumes de Ao Fim da Memória (1906-1987), obra fundamental para a reconstrução histórica da evolução cultural portuguesa ao longo do século XX, conforme refere Jorge Ramos do Ó.

Ao Fim da Memória - os dois volumes já foram ditados a Edith Arvelos, poetisa moçambicana que colaboraria também noutros inéditos, e a todos os que se ofereceram para o fazer - é um fresco que coaduna recordações com aspectos diarísticos em que a autora evoca a sua participação, ao lado de António Ferro, na revolução do modernismo brasileiro e nas exposições internacionais de Paris, Nova Iorque e São Francisco. Desfilam nestas páginas escritores, pintores, músicos, filósofos de várias nacionalidades e um sem-número de personalidades da vida literária, artística, política e social portuguesa. Nomes como Picabia, Poulenc, Colette, Unamuno, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, por quem foi retratada, convivem com o leitor.

Figuras tão diversas como Pessoa, Almada, Leitão de Barros - para cujo filme As Pupilas do Senhor Reitor escreveu as letras das canções -, José Gomes Ferreira, Ary dos Santos, Natália Correia, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Pirandello, Maurice Maeterlinck, François Mauriac e Mircea Eliade, entre muitas dezenas, fizeram parte do círculo das suas relações pessoais.

A intervenção de Fernanda de Castro atingirá, igualmente, o domínio da assistência social por meio da Associação Nacional dos Parques Infantis, de que foi fundadora nos alvores da década de 30 e principal impulsionadora ao longo de 40 anos.

A obra literária registra, por outro lado, uma teia, estrutura e arquétipo da existência na diversidade das suas relações, a de uma mulher forte e frágil a braços com a sua imaginação que não se sentiu vencida pela invalidez final, já que a "metade cavalo" do seu "signo de fogo Sagitário" não a impediu de "galopar pelas estradas do mistério e da aventura".

Prémios

Primeira mulher a obter, com o romance Maria da Lua, o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências, e Prémio Nacional de Poesia, revela-se curioso o diálogo com Ary dos Santos, a propósito dessa sua actividade, registado em Cartas Para Além do Tempo, com prefácio esclarecedor de João Bigotte Chorão. Escreve o poeta: "Não me chame nomes feios, senão eu chamo-lhe comunista." "Comunista? Isso é que nunca ninguém me chamou!", responde a poetisa. Replica ele: "Comunista, sim. Quem deu 40 anos da sua preciosa vida às centenas e centenas de crianças dos Parques Infantis, transformando as crianças em crianças alegres e felizes e mais tarde em pessoas de bem?" , pergunta ele. Remata Fernanda de Castro: "Mas isso, meu caro amigo, não se chama comunismo. Que eu saiba, chama-se cristianismo há, pelo menos, dois mil anos."

Para Aquilino, Fernanda de Castro "não tinha igual no lirismo contemporâneo", afirmando Pascoaes que os seus versos continham o que "de mais eterno há na poesia". Esta mulher não era, porém, nem uma poetisa nem uma ficcionista do desencanto. Em contraste com o peso problemático de uma obra mais tardia como a de Irene Lisboa, a leveza dir-se-ia uma marca dominante da sua narrativa que, num estilo límpido e suave, vivia tanto do eco das realidades abstractas como da tragédia interior, sob o signo da fractura entre a lógica comum e a vida realmente vivida. A obra de Fernanda de Castro - e de algum modo a de Maria Archer, Maria Lamas, com preocupações feministas definidas, e Natércia Freire - centra-se num mundo feminino marcado por uma ética do cuidado, fruto da experiência quotidiana e da rede dos afectos. É uma escrita do pormenor, de perfumes e silêncios, do itinerário de mulheres não alheadas do seu tempo e condição.

Conferencista, declamadora de poesia, dramaturga, poetisa, ficcionista, autora de guiões cinematográficos, casada com o escritor António Ferro e mãe do escritor António Quadros, viveu na Guiné até aos 12 anos e terminou os estudos liceais em Lisboa. Colaborou em várias publicações periódicas, conviveu com os modernistas brasileiros e desenvolveu uma importante actividade como tradutora, tendo traduzido Pirandello, Ionesco, Jules Romain, Valéry Larbaud, Maeterlinck, Rilke, Katherine Mansfield. Dedicou-se também à literatura infantil e à actividade teatral. Empreendeu a organização de vários parques infantis (espécie de jardins-de-infância destinados a receber crianças dos bairros populares de Lisboa). O seu romance Maria da Lua foi reconhecido com o prémio Ricardo Malheiros e Poesia I e II recebeu o Prémio Nacional de Poesia.

OBRAS

Náufragos (1920) (teatro)
Maria da Lua (1945) (romance)
Antemanhã (1919) (poesia)
Náufragos e Fim da Memória (poesia)
O Veneno do Sol e Sorte (1928) (ficção)
As aventuras de Mariazinha (literatura infantil)
Mariazinha em África (1926) (literatura infantil) (fruto da passagem da escritora pela Guiné Portuguesa
A Princesa dos Sete Castelos (1935) (literatura infantil)
As Novas Aventuras de Mariazinha (1935) (literatura infantil)
Asa no Espaço (1955) (poesia)
Poesia I e II (1969) (poesia)
Urgente (1989) (poesia)
Fontebela (1973)
Ao Fim da Memória “(Memórias 1906 – 1939)" (1986)
Pedra no Lago (teatro)
Exílio (1952)
África Raiz (1966).
Tudo É Príncípio
Os Cães não Mordem
Jardim (1928)
A Pedra no Lago (1943)
Asa no Espaço (poesia)
Cartas a um Poeta (tradução de Rainer Maria Rilke)
O Diário (tradução de Katherine Mansfield)
Verdade Para Cada Um (tradução de Piradello)
O Novo Inquilino (tradução de Ionesco)