O PINTINHO CEGO

É ridículo, não nego:
Mas como me comovia
Aquele pintinho cego
Que eu criava e não me via.

O meu cuidado primeiro,
Quando cansado chegava,
Era indagar do caseiro
Meu ceguinho como estava.

E ele que vivia a sós,
Num momento aparecia.
Certamente conhecia
O timbre da minha voz.

Vinha vindo e tateando
Pela grama do jardim.
Abaixava-se piando
A esperar com alegria
A festa que eu lhe fazia
Quando o tinha junto a mim.

Uma vez... (se bem me lembro
Era o mês de dezembro)
Pus a criadagem tonta...
Ninguém dele dava conta.

Fiquei louco, furibundo,
Pus em campo todo mundo,
Gente corria assustada
Pelo jardim, pela estrada,

Até que o acharam com frio,
Longe, num campo baldio,
Tonto, sem poder voltar.
O seu caminho de volta
Era escuro e misterioso
Como uma noite sem luar.

Então resolvi prendê-lo:
Fiz-lhe uma casa de palha
E a todo instante ia vê-lo.
Desse modo procurava
Dar-lhe paciência e esperança
Enquanto ele era criança,
Para aguardar o futuro
Mais escuro que o esperava.

Mas o destino, na trama
Como a aranha o prendeu.

O caseiro resolveu
Soltá-lo um pouco na grama...
E ele desapareceu.

Quando no fim de semana
Voltei à minha choupana...
Vinha feliz! Mal sabia
Que ele não mais existia.

E me acreditem, não nego,
Chorei com pena e saudade
Daquele pintinho cego
Que não via a claridade
Do sol que ilumina o dia,
Que dá vida a todos nós,
E entanto me conhecia
E era feliz quando ouvia
O timbre da minha voz.

© OLEGÁRIO MARIANO
In Poesia Brasileira para a Infância


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Comentários (10)

EU AMO ESTA POESIA DESDE OS MEUS SETE ANOS
Me lembro quando li este poema do pintinho cego, tinha menos de 10 anos, e chorei... Depois tentava ler para minha mae, enquanto ela costurava, e nao chegava à metade sem soluçar aos prantos. Hoje, quase 40 anos depois, lembrei-me do poema buscando-o por internet, e fiquei muito emocionada quando o encontrei, falei à minha filha de quase 16 anos que me escutara, que lhe iria ler algo que me recordava minha infancia. Comecei a ler, e tive que que interromper, pois entre as lágrimas e os soluços, foi impossivel continuar. O autor é um genio, maravilhoso, sabendo transmitir com ternura estes nobres sentimentos, que chegam aos coraçoes dos pequenos e dos menos pequenos. Na minha cabeça, existiu verdadeiramente este animalzinho tao vulneravel e amoroso, Obrigado, Olegario, por permitir que eu resgatasse uma pequena porçao do meu passado, e que reencontrasse a menina que um dia fui, e que ainda vive em algum lugar de meu ser. No céu dos poetas, serás o melhor!
decorei essa poesia qdo tinha 8 anos estou com 63 e ainda sei adoro obrigada pela postagem
Como Fily, eu também não conseguia chegar ao final da leitura sem chorar. Em casa tive que estudar a leitura para a aula de português da 2ª ou 3ª série, não lembro-me ao certo, e chorei muito. Já em classe quando a professora pediu para fazer a leitura do poema, antes de iniciar comecei a chorar e aos soluços fiz a leitura com a voz embargada e com dificuldade, pois as lágrimas embaraçavam as letras e não consegui chegar ao final. Depois, mesmo sabendo que iria chorar copiosamente, gostava de todos os dias ler o poema que me tocou fundo o coração. Hoje com 69 anos, do nada, lembrei do poema e resolvi pesquisar na internet e me emocionei novamente ao lê-lo. Muitas saudades da minha doce infância.
Mexe comigo! tenho um cachorrinho que ficou cego! primeiro havia perdido uma vista, em dezembro de 2014 foi mordido por um cão de grande porte q atingiu a outra. Estava no hospital veterinário e teve alta em 31/12/2014, fui buscá-lo, quando ouviu minha voz me fez a maior festa, sua dor e sua cegueira, parecia não representar nada diante de minha presença, se não fosse a verdadeira lealdade dos cães, poderia achar até que era cinismo, parecia que eu havia chegado para lhe resgatar a visão, coloquei-o no carro como de praxe, só não falava, mas, em gestos me pedia para abrir os vidros, queria ver tudo...quando abri! minha garganta deu um nó, vi sua indignação, não entendia nada que estava acontecendo, foi a virada de ano mais triste de minha vida. Hoje, assimilou bem e vive com tranquilidade. Era seu destino viver com essa cegueira.
Queridos amigos..Não vou escrever nada pois tudo o que viivi e senti ja foi escrito acima...TAMBEM AMEI ESTE PINTINHO CEGO E CHOREI MUITO JUNTO COM MEUS IRMÃO MAIS VELHOS..Dirceu e Marlene...E hoje achei esta poesia aqui..OBRIGADA por postar!!
Incrível, essa poesia também fez parte da minha história. Declamei-a na festa de bodas do nosso velho Padre Diniz. Sempre me emocionava muito.
O pintinho cego de Olegário Mariano e História de um Cão de Luis Guimarães. Lindas e tristes.
Aos meus 66 anos de idade, ainda recito este belo poema para meus netos e o faço com emoção. Me lembro que, aos 8 anos de idade, eu já o tinha decorado e para minha surpresa a professora pediu para que as crianças subissem na cadeira e recitasse um verso. Tão logo eu atendi a professora e, em lágrimas, declamei essa bela poesia sob splausos.
Aos meus 66 anos de idade, ainda recito este belo poema para meus netos e o faço com emoção. Me lembro que, aos 8 anos de idade, eu já o tinha decorado e para minha surpresa a professora pediu para que as crianças subissem na cadeira e recitasse um verso. Tão logo eu atendi a professora e, em lágrimas, declamei essa bela poesia sob splausos.

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