INÍCIO | POESIAS | POETAS | MÚSICOS | RÁDIO | VÍDEOS | LIVROS | RECENTES | CARTÕES | E-BOOKS | MURAL | FÓRUM | BLOGS | AGENDA | INSCRIÇÃO | CONTATO
 
 
NOTURNO

Minh’alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh’alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!

Minh’alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias da viuvez;

Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh’alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!


© Fagundes Varella
In Cantos meridionais, 1869

Número de visualizações em 2017: 1404
Número de curtidas: 104
 
Compartilhar via Facebook Compartilhar via Twitter Compartilhar via Google+

Comentários (1)

Avatar do visitante

DANIEL P. CANTANHEDE · 10/04/2015, às 17h07

Quando se lê uma poesia dessas, dá vontade mesmo de esquecer o mundo, e partir para plagas ainda não visitadas, procurando aconchegar-se em lugares onde não possa ser alcançado por essa corja maldita de humanos sem coração.

Postar um novo comentário

CADASTRAR-SE NO QUADRO DE AVISOS | POR ONDE A VOZ ECOA | ÁREA ADMINISTRATIVA DOS POETAS | ENVIAR AVISO (SOMENTE ADMINISTRADORES)
FacebookOrkutTwitterGPlusYoutubeMyspaceDhittPaltalkRSS
 
Copyright 2001 - 2013 - A Voz da Poesia Falando ao Coração - Design GamaBrasil