ENCONTRO

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In: Claro enigma, 1951 e
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2002



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Comentários (6)

q legal q lega!!!!
Lindo, é um poema maravilhoso e sensível
Muito interessante
Oloko Mt Top esse ai Gosto muito .... Lindo <3'
Quem já perdeu o pai sabe o significado de cada verso, de cada estrofe! Nostálgico...Saudades!
Vou dedicar para o meu pai. Já partiu para o andra de cima, mas tenho certeza que vela por mim. Beijos. Sr. Manuel Trigo.

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