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A GLEBA ME TRANSFIGURA

Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num
esponsal sublimado,
procriador e fecundo.
Sinto seus trabalhadores rudes e obscuros,
suas aspirações inalcançadas, apreensões e desenganos.
Plantei e colhi pelas suas mãos calosas e mal
remuneradas.
Participamos receosos do sol e da chuva em
desencontro,
nas lavouras carecidas.
Acompanhamos atentos, trovões longínquos e o riscar
de relâmpagos no escuro da noite, irmanados no
regozijo
das formações escuras e pejadas no espaço
e o refrigério da chuva nas roças plantadas, nos pastos
maduros
e nas cabeceiras das aguadas.
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros,
o roncar e focinhar dos porcos, o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir dos cães,
eu me identifico.
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.
Pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas
estradas.
Sou a espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e
peso de machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.

Eu me procuro no passado.
Procuro a mulher sitiante, neta de sesmeiros.
Procuro Aninha, a inzoneira que conversava  com as
formigas,
e seu comadrio com o ninho das rolinhas.
Onde está Aninha, a inzoneira,
menina do banco das mais atrasadas da escola de
Mestre Silvina…
Onde ficaram os bancos e as velhas cartilhas da minha
escola primária?
Minha mestra… Minha mestra… beijo-lhe as mãos,
tão pobre!…
Meus velhos colegas, um a um foram partindo,
raleando a fileira…
Aninha, a sobrevivente, sua escrita pesada, assentada
nas pedras da nossa cidade…

Amo a terra de um velho amor consagrado
através das gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
Identificada com seus homens rudes e obscuros,
enxadeiros, machadeiros e boiadeiros, peões e
moradores.
Seus trabalhos rotineiros, suas limitadas aspirações.
Partilhei com eles de esperança e desenganos.

Juntos, rezamos pela chuva e pelo sol.
Assuntamos de um trovão longínquo, de um fuzilar
de relâmpagos, de um sol fulgurante e desesperador,
abatendo as lavouras carecidas.
Festejamos a formação no espaço de grandes nuvens
escuras
e pejadas para a salvação das lavouras a se perderem.
Plantei pelas suas enxadas e suas mãos calosas.
Colhi pelo seu esforço e constância.

Minha identificação com a gleba e com a sua gente.
Mulher da roça eu o sou. Mulher operária, doceira,
abelha no seu artesanato, boa cozinheira, boa lavadeira.
A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se
chama Vida.
Sou a formiga incansável, diligente, compondo seus
abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e
sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador, é o arado que vai
sulcando
para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e
fecundada
no ventre escuro da terra.

© CORA CORALINA
In Melhores poemas, 2004

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Comentários (12)

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santo de brito silva · 16/12/2013, às 11h34

BELÍSSIMO TEXTO, encantador, não deixando de observar que ela tornou-se célebre já com idade avançada.
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Beattriz · 06/03/2014, às 15h09

Belo texto eu fiquei muito impressionada com o que eu li!!!
ALUNO: RAULITO LOPES DA SILVA POLO – REMANSO – BAHIA EMAIL: [email protected] O poema de Cora Coralina “A GLEBA ME TRANSFIGURA”, me faz voltar os tempos de outrora, de forma maravilhosa, pois muito do que eu li pude associar minha experiência no passado com a natureza, pois vi muitas vezes: grão fecundando, chuva, sol, lavouras carecidas de chuvas, grandes nuvens escuras, homens rudes, grão retomando a terra, enxada cavando, folha, tronco, árvore, latir dos cães, cantar dos galos, mééé dos bezerros, focinhar dos porcos, currais, fazendas primitivas, trabalhadores rudes, trovões longínquos, relâmpagos no escuro da noite e tantas outras situações colocadas no poema que me fez sentir saudade da minha infância. A vida no campo não é fácil, muitas dificuldades os trabalhadores rurais enfrentam como; invernos ruins, falta de água, em consequência disso vêm animais morrendo, pouca plantação agrícola, etc., mas com tudo o contado com a natureza é fantástico.
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Faelma Mendonça · 07/03/2014, às 23h43

fique muito feliz ao ler o texto de Cora Coralina, faz lembrar o meu tempo de criança no sitio dos meus queridos avós onde eles ficavam ansiosos para ver a chuva e molhar a plantação de milho,feijão.

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rivaldete soares · 10/03/2014, às 02h20

muito lindo!! foi assim uma retrospectiva da minha vida me vi criança correndo na chuva com meus irmãos caras sujas de lama o coaxa dos sapos e aquelas espumas que eles deixam nas poças d'agua, meu pai meus avôs cultivando a terra os brotos de feijão nascendo o sol se pondo meu avô colocando o gado no curral com aqueles mugidos as criações no chiqueiro com aquéles méééé árvores frondosas pé de juá enormes e as frutinhas e minha mãe falando pra não comer com medo de engolirmos os caroços ,vinha a seca no sertão, mesmo criança apanhávamos água nos barreiros na cabeça levamos a lata com água; como nem tudo é maravilha houve momentos ruins e bons, de uma coisa tenho certeza brinquei muito como hoje quase nenhuma criança brinca.
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Katia Mendonça · 11/03/2014, às 23h37

O poema de Cora Coralina, Fez-me voltar a muitas lembranças, no sitio onde plantavamos e viamos germinar as plantas e esperando ansiosos que caia a graciosa chuva onde a alegria renasse, más até a chuva vem com dificuldade, deixando só esperança que haverá dias melhores.
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regiane rocha · 14/03/2014, às 19h05

Acho incrível a capacidade do ser humano de criar coisas belissimas... poemas que falam ao nosso coração... que nos faz lembrar de tempos bons.. ou até mesmo os tempos difíceis.. Esse poema é belissimo....
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Cleide Oliveira · 19/03/2014, às 02h38

Belíssimo poema da nossa saudosa Cora Coralina, ao ler mergulhei e transportei-me a um passado, de uma vida simples e feliz, que apesar das muitas dificuldades da vida no campo,a esperança em dias melhores , apelo a Deus pela chuva para termos uma boa colheita e não faltar água para os animais que viviam na Caatinga, tudo isso era parte do nosso cotidiano.
gostei, do poema é o passado de muitos professores do meu município mais alguns negar sua vida dificel que passou no campo eu orgulho de ter vencidos muitas barreiras se aprende mais com os problemas .A vida só e boa quando tem historias para contar
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Lucineide · 23/03/2014, às 22h57

Muito interessante esse poema onde pude voltar a minha infância, recordando boa lembranças !
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maria tereza · 25/03/2014, às 23h48

Essa poesia retrata a relação entre o ser humano e o meio ambiente ,como ser que transforma a natureza e dela utiliza os recursos naturais ,usufruindo assim de tudo que a terra nos oferece de bom ,em meio a tantos problemas do meio ambiente ,eu me sinto como agente transformador desse espaço e procuro fazer o possível para que o planeta ,seja preservado de tal forma que as presentes e as futuras n gerações ,tenham melhoria na qualidade de vida e assim garanta a sobrevivência no planeta TERRA.
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ROSANGELA · 01/04/2014, às 20h34

o poema a Gleba me transfigura me fez voltar no tempo de criança onde me vi correndo na chuva, o gado no terreiro, as cabras, o coaxa dos sapos, meu pai cultivando a terra, por muitas vezes vi o broto do feijao nascendo. A vida no campo nao é facil a falta de chuva muitas vezes deixava as pessoas tristes pois plantava e nao colhiam, mas uma coisa tenho certeza que meu pai é muito feliz é tanto que nunca quiz se mudar.

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