PARTE II: LIRA VI

De que te queixas,
Língua importuna?
De que a fortuna
Roubar-te queira
O que te deu?
     Este foi sempre
     O gênio seu.

Levou, Marília,
A ímpia sorte
Catões à morte;
Nem sepultura
Lhes concedeu1.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

A outros muitos,
Que vis2 nasceram,
Nem mereceram,
A grandes tronos
A ímpia ergueu.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

Espalha a cega
Sobre os humanos
Os bens e os danos,
E a quem se devam
Nunca escolheu.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

A quanto é justo
Jamais se dobra;
Nem igual obra
Cos mesmos deuses
Do claro3 céu.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

Sobe ao céu Vênus
Num carro ufano;
E cai Vulcano
Da pura esfera
Em que nasceu.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

Mas não me rouba,
Bem que se mude,
Honra e virtude:
Que o mais é dela,
Mas isto é meu.
     Este foi sempre
     O gênio seu.

© TOMÁZ ANTONIO GONZAGA
In Marília de Dirceu, 1792

NOTAS:

1. Nem sepultura / Lhes concedeu. Entenda-se: nem sequer sepultura lhes concedeu.

2. vis: humilde, de pouco valor. Nesta acepção é latinismo, o mesmo que ocorre em Os Lusíadas, I, 10, 1: "Vereis amor da pátria não movido / De prêmio vil,mas alto e quase eterno".

3. claro: A edição princeps, conforme assinala Rodrigues Lapa, traz caro. O erro veio a ser corrigido na edição Lacerdina, de 1811, cuja lição, seguindo na esteira daquele filólogo, adotamos aqui.


(Texto estabelecido e anotado por Sérgio Pachá)

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Comentários (1)

N entedi nada

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