A SUICIDA

Quando atentou contra a vida
entristeceu a cidade.

Mais tolo e sério motivo:
um amor contrariado.

A comoção arrepiou
do comunista ao vigário.

Algumas vozes pesadas
arquitetaram vingança,

mas o caixeiro-viajante,
que jurara e perjurara,

já ia lépido e longe,
levando o sonho dos sonhos:

grinalda, véu, aliança,
padrinhos, padre, juiz

e marcha nupcial.
Pobre moça. Ainda bem

que o gesto tresloucado
não chegara a cumprir sua

sinistra finalidade,
embora tivesse havido

forte determinação
— tanto que ela bebera,

de uma só vez, todo um vidro
de tinta — para canetas —

Parker Quink. Felizmente,
de um azul claro, suave

e (o que por certo lhe
salvara a vida) lavável.


RUY ESPINHEIRA FILHO _____In: A Cidade e os Sonhos. Salvador: Edições Cidade da Bahia/Fundação Gregório de Matos, 2003


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