OS LADOS

Era o fim de uma guerra
e todos os homens tinham decidido se matar.
E se matavam: eu via
a interminável multidão de cadáveres
na lama das ruas,
espalhada pelos campos,
descendo os rios.
E eu mesmo teria que me matar,
embora sem nenhuma vontade,
pensando um meio de continuar vivo,
mas sem saída: todos os homens teriam mesmo
que se matar.

Como viam minha hesitação,
algumas mulheres (que não iriam se matar,
as mulheres,
nenhuma delas,
acho que porque alguém teria
de ficar para fazer a comida,
lavar as roupas,
cuidar das crianças,
tecer vestuários, tranças
e intrigas,
coisas que só se pode fazer
com muita vida),
me falavam de maneiras de morrer
com rapidez e até
prazerosamente.
O que não me consolava. E então
deram-me umas pílulas misericordiosas
que prometiam apenas um rubor nas faces
e a paralisia imediata do músculo cardíaco,
e lá fui andando com elas nas mãos,
as pílulas,
perdido,
a alma cheia de cinzas,
e de súbito veio uma claridade e elas,
as misericordiosas
pílulas e mulheres,
haviam desaparecido,
eu não teria mais que me matar,
e baixou sobre mim uma paz imensa,
pois havia despertado
do outro lado,
mais exatamente deste lado
do sonho.

Escrevo desta maneira lembrando um amigo poeta
que me resumiu assim a morte: apagamos e
imediatamente despertamos
do outro lado.
Perguntei-lhe que outro lado. Não gostou,
fitou-me como se eu fosse uma
abominação.
É verdade, nunca entendi bem essa certeza
no outro lado,
mas aprendi com Goethe a não negar essa possibilidade,
porque, explicou ele,
se existisse mesmo o outro lado,
ali chegando, em sua vez,
teria de suportar os crentes,
que zombariam do seu desmoralizado ceticismo
eternamente,
eternamente...
(foi o que ele disse certa vez a Eckermann,
se não me engano,
de maneira bem mais elegante
do que esta,
pois, afinal, era Goethe).

Do outro lado.
Passei para este lado e não tinha mais que morrer.
Esta é a esperança dos que falam do outro lado,
não o do sonho como o que tive,
mas aquele para o que passamos e não morremos mais.
É só apagar e brilhar e viver bem-aventurado para sempre.
Ou ser,
como temia Goethe,
caso se tenha cometido o pecado da Dúvida,
condenado às chamas da ironia e do sarcasmo
eternamente,
eternamente...

(E jamais poderia haver uma contrapartida
daqueles que duvidaram:
se apagarmos neste sonho e não despertarmos em outro
não poderemos zombar dos que acreditaram
e nada encontraram,
porque nem eles nem nós estaremos em qualquer lado,
pois não haverá lado nenhum,
sonho nenhum,
não haverá nada,
nada,
nada,
eternamente,
eternamente,
eternamente...)


© RUY ESPINHEIRA FILHO _____ In: Noite alta e outros poemas. São Paulo: Editora Patuá, 2015. 


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