LENDA ANTIGA

A Velhice e a Mocidade
Nos umbrais da Eternidade
Viram-se um dia. A Velhice

Deteve a outra e lhe disse
Com toda a serenidade
E a mais perfeita meiguice:

“Tu és, encanto adorado,
O perfil do meu passado
E o meu primitivo encanto:

Devo explicar-te portanto
Da vida o mal condenado
E a negra origem do pranto”.

A Mocidade viçosa
Escuta maliciosa:
Prossegue a Velhice: “Evita

O amor que as veias excita,
E a fada misteriosa
Que dentro d’alma se agita:

As bocas rubras e belas
De mil milhões de donzelas
Mais terríveis que a ambrosia...”

— “E depois? depois?” — “Num dia,
Numa noite em que as estrelas
E a branca Lua erradia

Vogarem pelos espaços,
Sentirás talvez os braços
Do pecado traiçoeiro:

Cautela! no mundo inteiro
O inferno semeia laços
Ao pé incauto e rasteiro...”

A Mocidade imprudente
Inquieta, febril, contente,
Disse à velha parladora:

“Deus vos merceie, Senhora,
E vos dê eternamente
A santa luz redentora:

Deus vos pague estes instantes
De surpresas incessantes,
De gozo vivo, fecundo,

E de delírio profundo”.
Abriu as asas brilhantes
E — rindo — baixou ao mundo.


© LUÍS GUIMARÃES JÚNIOR. In: Sonetos e Rimas. Roma: Typographia Elzeviriana, 1880.
_____ 2ª edição revista e aumentada. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão – Editores, 1886.
_____ Coleção Afrânio Peixoto: 93. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010.


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