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O MILAGRE DE NOSSA SENHORA APARECIDA

Os homens não tinham peixe
Para o conde de Assumar.
Os barcos desciam nas águas escuras
Do rio deserto… E os barcos subiam
Nas águas escuras do rio deserto…
Tornavam subindo… descendo… a tentar!
Lançavam as redes… Puxavam as redes…
E as redes vazias! Sem nada pescar!
Os homens não tinham peixe
Para o conde de Assumar.

Domingos Garcia, caboclo valente,
Com os braços de ferro, tocava a empurrar
A triste canoa, sem nada pescar.
Pedroso gritava para os companheiros,
Que logo cortaram as águas escuras
Do rio deserto…

“Oh! lá, companheiros!
Oh! Lá, canoeiros!
Que novas a dar?! Que novas a dar?!”

E a mesma resposta caía da noite,
Nos barcos vazios, sem nada pescar…
Os homens não tinham peixe
Para o conde de Assumar!…

João Alves, aflito, já sem esperança,
Olhando as estrelas, se pôs a rezar:
“Santíssima Virgem! Tem pena de mim!…
Rainha celeste!Tem pena de mim!…
És dona dos peixes, que moram nas águas!
Ordena que venham encher nossos
barcos!
Que um só dos teus gestos nos pode
salvar!…
Dá-nos peixe pra dom Pedro,
Para o conde de Assumar!”

E a rede atirando, com punho de mestre,
A rede nas águas se abriu em estrelas,
Caiu… Foi ao fundo… (João Alves chorava,
João Alves rezava, tocado de fé!…)
Puxou de mansinho, que a rede
pesava…
“São peixes! - dizia. São peixes, enfim,
Que Nossa Senhora tem pena de mim…”

Mas, - oh!-luz estranha que vem
dentro à rede!
É Nossa Senhora que vem dentro à rede,
Do pobre, do humilde, feliz pescador,
Que louco de alegre se põe a gritar:

Oh! Lá, canoeiros!
Oh! Lá, companheiros!

Oh! Lá, pescadores que estais a pescar!
Milagre! Milagre! Fazei vosso lanços,
Que Nossa Senhora já me apareceu!”
E os homens todos tocados
De uma alegria sem par
Encheram os barcos de peixe,
Para o conde de Assumar.

Ó Nossa Senhora, que ouviste o
barqueiro,
Que ouviste há dois séculos,de nós não
te vás!
Nem mesmo um instante, sequer, nos
esqueças!
Tu, que apareceste, não desapareças
Daqui, desta Pátria! Jamais! Nunca
mais!


© ADELMAR TAVARES
In Poesias completas, 1958

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