VELHO SOBRADO


Um montão disforme. Taipas e pedras,
abraçadas a grossas aroeiras,
toscamente esquadriadas.
Folhas de janelas.
Pedaços de batentes.
Almofadados de portas.
Vidraças estilhaçadas.
Ferragens retorcidas.

Abandono. Silêncio. Desordem.
Ausência, sobretudo.
O avanço vegetal acoberta o quadro.
Carrapateiras cacheadas.
São-caetano com seu verde planejamento,
pendurado de frutinhas ouro-rosa.
Uma bucha de cordoalha enfolhada,
berrante de flores amarelas
cingindo tudo.
Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho.
No alto, instala-se, dominadora,
uma jovem gameleira, dona do futuro.
Cortina vulgar de de (...)

Obra resguardada por direito autoral. Para conferir o restante deste texto, consulte a referência bibliográfica indicada abaixo.

© de mamão-macho.
No alto, instala-se, dominadora,
uma jovem gameleira, dona do futuro.
Cortina vulgar de decência urbana
defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado
- um muro.

Fechado. Largado.
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas,
de ferro forjado,
cede.

Bem que podia ser conservado,
bem que devia ser retocado,
tão alto, tão nobre-senhorial.
O sobradão dos Vieiras
cai aos pedaços,
abandonado.
Parede hoje. Parede amanhã.
Caliça, telhas e pedras
se amontoando com estrondo.
Famílias alarmadas se mudando.
Assustados - passantes e vizinhos.
Aos poucos, a “fortaleza” desabando.

Quem se lembra?
Quem se esquece?

Padre Vicente JosÃ

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Comentários (6)

Caro Carolina... sempre povoou minha imaginação com seus escritos fabulosos.
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Rivaldo g.da Silva · 21/08/2015, às 17h09

este poema min recorda minha infância quando criança brincava em um casarão abandonado até ai eu erá criança.Muito adorei esta recordação.
Para mim é o mais belo poema que existe! A sempre imortal CORA CORALINA sabe como poucas retratar o passado como se fosse uma detalhada pintura onde sua alma e emoção falam mais alto numa simetria mais-que-perfeita!!!
Oi
Este poema me lembra da minha infância
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Valdir Claudio · 21/11/2017, às 21h02

É uma obra prima.

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