CARTAS DE MEU AVÔ

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças...

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

© MANUEL BANDEIRA
In A cinza das horas, 1917

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Comentários (8)

que fofo

Essa poesia é perfeita eu aamei mesmo parabens ele é um dos melhores poetas que eu ja conheci

Dizer o que ? Escrito com simplicidade toca a alma.
a palavra e estabelece qual sentido gramatical

muito interessante

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Neusa Steinbach · 02/03/2015, às 00h18

Amo o poeta Manuel Bandeira. A sua poesia retrata a sua vida só, mas sem pieguices. No seu primeiro livro Libertinagem percebe-se uma busca por nossa identidade nacional. Como escreveu Drummond-" Teu nome é para nós, Manuel, Bandeira".
fascinante
Meu Deus... que poema lindo.

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