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RÁDIO DO POETA
 
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A LUA
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A MORTE DE PÃ
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A ROSA
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BELO BELO
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POEMA DESENTRANHADO DE UMA PROSA DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
POEMA DO BECO
POEMA DO MAIS TRISTE MAIO
POEMETO ERÓTICO
POÉTICA
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:: SONETOS ::
 
À MANEIRA DE... OLEGÁRIO MARIANO
A MINHA IRMÃ
IMPROVISO [3]
IRMÃ
MAL SEM MUDANÇA
O PALACETE DOS AMORES
PEREGRINAÇÃO [2]
RENÚNCIA
SONETO INGLÊS N.º 1
SONETO INGLÊS N.º 2
SONETO ITALIANO
SONETO PLAGIADO DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
SONETO SONHADO
SONHO BRANCO
UM SORRISO
VARIAÇÕES SÉRIAS EM FORMA DE SONETO
VONTADE DE MORRER
CARTAS DE MEU AVÔ

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças...

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

© MANUEL BANDEIRA
In A cinza das horas, 1917

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